Tudo azul

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EGM Brasil
21/12 - 16:02

O longa-metragem em computação gráfica Final Fantasy: Spirits Within não resultou apenas em um prejuízo de US$ 120 milhões à Square, mas também na saída do diretor do filme e criador da série, Hironobu Sakaguchi, como apontavam boatos na época. No entanto, sua obra vindoura, Blue Dragon, é procedente de uma nova empreitada, o estúdio Mistwalker, fundado por ele em 2001 e que começou a operar em 2004. Com o aval da Microsoft Game Studios, o título inaugural da softhouse poderá ser um bom motivo para aumentar no Japão a popularidade do Xbox 360, único console a ser agraciado com o RPG.

 

O regresso dos mestres

 

Nos jogos, Sakaguchi vinha ocupando cargos corporativos nos últimos episódios da série de RPGs Final Fantasy. Seu último trabalho na direção foi em FFV, de 1992, e como produtor não atua desde 1997, ano em que foi lançado FFVII. Blue Dragon marca o retorno dele na produção após quase uma década. “Como game designer, estou gostando muito da Mistwalker porque posso usar a maior parte do meu tempo e da minha habilidade para criar um jogo novo”, comenta. “Algumas vezes, você não pode curtir a criação de um game em uma grande empresa, e pessoalmente não tenho intenção de negligenciar o tipo de gerenciamento que tenho na Mistwalker agora”.

 

Se fosse somente pela participação mais ativa do aclamado Sakaguchi, o jogo causaria expectativa, mas o título ainda desfruta do talento de duas figuras ilustres: Nobuo Uematsu e Akira Toriyama. Ao lado da dupla, Sakaguchi remonta pela primeira vez desde 1995 a tríade de gênios que fez parte do “Time dos Sonhos”, alcunha dada à equipe formada no clássico Chrono Trigger do Super Nintendo — só faltou mesmo o idealizador de Dragon Quest, Yuji Horii. Tal façanha não foi realizada nem na seqüência, Chrono Cross, jogo do PSone no qual Sakaguchi foi o único dos três a participar.

 

Uematsu conhece o produtor de longa data, desde os tempos de Squaresoft, quando cuidava das músicas da série FF. Tal qual Sakaguchi, ele teve participações discretas nos últimos games da saga — seu último trabalho solo da franquia foi FFIX, em 2000. Depois disso, fez melodias ao lado de outros compositores em FFX e XI. Em FFXII, sua única nova criação foi o tema do jogo. Em Blue Dragon, ele teceu toda a trilha, que já está concluída e conta com faixas orquestradas, líricas e com coral, sendo que as letras das canções foram escritas pelo próprio Hironobu Sakaguchi. Dois cantores foram confirmados. Ayako Kawasumi, artista J-Pop e dubladora de diversos animes e games, cantou “My Tears and the Sky”. O segundo é bastante inusitado para um RPG: Ian Gillan, vocalista da lendária banda de rock inglesa Deep Purple, cedeu a voz para “Eternity”. Além disso, a música principal já foi tocada em algumas apresentações do concerto PLAY! A Video Game Symphony, que assim como a Video Games Live é uma récita dedicada exclusivamente a músicas de jogos eletrônicos.

 

Toriyama, por sua vez, é ninguém menos que o pai do mangá Dragon Ball e também designer de personagens da série de RPGs Dragon Quest, função esta que ocupou em Blue Dragon. Capaz de conferir carisma em protagonistas, NPCs e até nos mais insignificantes monstros, o insigne ilustrador obviamente mantém o traço peculiar com os indefectíveis olhos esbugalhados e feições exageradas.

 

Simplicidade e tradição

 

De autoria de Sakaguchi, o enredo é bem simples, nada mirabolante e sem floreios. A aventura é ambientada num mundo repleto de ruínas de uma civilização antiga, com robôs e máquinas, mas que as pessoas não sabem como usá-las. Cinco heróis devem derrotar o vilão Nene, que pretende trazer o caos por meio de poderes mágicos que pareciam ter caído no esquecimento. Para detê-lo, os protagonistas contam com a capacidade de transfigurar suas sombras em diferentes seres e assim desvendar os segredos dos ancestrais.

 

O protagonista de cabelo espetado, Shu, pode usar a sua sombra na forma de um dragão azul que dá nome ao jogo; a misteriosa pirata Zora pode modificar sua sombra em morcego; a simpática Kluke, em fênix; Jiro, um rapaz que traja uma túnica verde muito parecida com a de Super Saiyaman de Dragon Ball Z, em minotauro; e, por fim, o diminuto ente com chifres, Marumaro, em tigre. Dessa maneira, as sombras funcionarão como uma espécie de equipamento, podendo ser mescladas e personalizadas, somando cerca de 200 tipos diferentes. A habilidade de Shu, por exemplo, é focada no ataque de elementos naturais, tais como socos de energia e rajadas d’água. Já o poder de Kluke enfatiza a recuperação de energia dos companheiros.

 

As sombras estarão disponíveis automaticamente nas batalhas, sem a necessidade de invocá-las sob circunstâncias especiais. A mecânica de combate, que será por turnos, herda alguns elementos da série Final Fantasy e preza pela tradição, com os convencionais menus e transição entre mapa de exploração e campo de batalha, ativado quando um personagem (apenas Shu é visto no cenário) toca em um inimigo, sem os confrontos aleatórios. Não há limite de tempo e a ordem poderá ser alterada de acordo com os ataques, como em FFX. Ademais, será possível selecionar se os aventureiros ficarão em uma linha de frente ou de trás – outra influência de FF –, de acordo com a preferência do jogador por uma tática ofensiva ou defensiva, respectivamente.

 

Em relação aos gráficos, Blue Dragon, que usa uma engine própria, possivelmente não representa o melhor que o Xbox 360 tem a oferecer, mas exibe boa animação dos personagens, belos efeitos de água e de física – como cabelo, brincos e indumentária de Zora que tremulam –, além de luz volumétrica. O trailer mais recente do game, exibido durante o X06, evento da Microsoft ocorrido na Espanha, chamou a atenção pelas cenas de ação fabulosas, com diversos personagens simultâneos e monstros de proporções colossais.

 

Vale lembrar que o desenvolvimento de Blue Dragon está a cargo da Artoon, softhouse criadora da série Blinx do Xbox. Provém do estúdio, entre outros, o diretor Takuya Matsumoto, ex-funcionário da Sega que tem jogos como Ristar (Mega Drive) e Nights into Dreams (Saturn) no currículo, além do responsável pelos cenários do mundo do RPG, Manabu Kusunoki, que trabalhou na saga Panzer Dragoon.

 

Blue Dragon promete ser não somente um game, mas também uma franquia. Para promover o lançamento, havia um pacote em pré-venda que inclui uma pomposa frente removível do 360 com o dragão azul do jogo; a Bandai irá fazer figuras de ação dos personagens e, ainda por cima, rumores sugerem a existência de um anime baseado no título.

 

Não poderia ser menos. Uma obra com a participação de três gênios aclamados no Japão tem tudo para emplacar o Xbox 360 com um RPG, gênero venerado pelos nipônicos, que terão a oportunidade de conhecê-lo ainda este ano, no dia 7 de dezembro. E nos Estados Unidos, só em 2007.