O erotismo e os games

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Fábio Bracht
11.04.2008

Se há alguns anos era improvável fazer qualquer paralelo entre os dois assuntos, hoje essa ligação não só é possível, como acontece o tempo inteiro. A abordagem do erotismo nos mais diversos segmentos do entretenimento é comum e, como não podia ser diferente, atrai a atenção dos mais curiosos. Nos games essa realidade hoje faz jus às demais vertentes e estimula o crescimento de um novo mercado.

A indústria de jogos eróticos é mais evidente no Japão, onde imperam os mangas, animes e hentais. Vale ressaltar, entretanto, que mesmo com toda a popularidade, esse setor do mercado de jogos precisa se adequar e se reestruturar de modo que atenda ao exigente público entusiasta.   

O erotismo faz parte da história humana. Ele existe desde sempre e cada vez mais ganha espaço na sociedade. "Pra começar, todo mundo faz sexo. Ou se não faz pelo menos pensa em fazer. Não tem jeito. Aí tem todo aquele tabu, intimidade, essas coisas. Ver algo que o outro faz, ou que outro expõe, é uma questão de instinto humano, eu diria". Quem afirma é Thiago Borbolla, editor do site Judão, famoso por explorar bastante o erotismo (mas não a pornografia) na sua cobertura da cultura pop atual.

Lançado recentemente para Xbox 360, o jogo `Mass Effect´, um RPG com trama e personagens complexos, foi vítima de sensacionalismo pela mídia americana graças a sugestiva relação homossexual entre duas personagens – uma mulher humana e uma alienígena humanóide. O título foi taxado como “game pornográfico” e gerou polêmica. Alguns grupos pediram a sua proibição, enquanto pais bradavam pela educação e moral de seus filhos. O fato é que as cenas mostradas no jogo são extremamente leves, até mesmo para os recatados padrões americanos. As novelas brasileiras exibem cenas mais fortes e os filmes de Hollywood, que recebem classificação etária para maiores de 12 ou 14 anos, são ainda mais “adultos” do que o game em questão.

Edson Aran, editor da revista Playboy brasileira, que tanto convive com o erotismo por conta do seu trabalho, admite que só teve uma experiência com sexo nos games: "Nunca vi um game erótico. Vi apenas aquela parte 'fechada' do GTA, mas o jogo não me agrada por vários outros motivos, então não perdi meu tempo com ele". Aran refere-se ao famigerado caso "Hot Coffee", que consiste em uma seção do jogo Grand Theft Auto: San Andreas onde o protagonista faz sexo com sua namorada no jogo. A seção não está inclusa normalmente no título (provavelmente foi programada apenas como diversão pelos desenvolvedores), mas pode ser liberada por meio da instalação de um arquivo de "patch", feito pelos usuários, na versão para PC. Foi o primeiro caso em que videogames e erotismo foram ligados fortemente, causando uma polêmica até então inédita em um passatempo ainda erroneamente tido como infantil.

Uma prova de que os games, enquanto mídia, ainda não são um ambiente propício à sensualidade é o seu sistema de classificação etária. Há a classificação "Teen", para maiores de 17 anos, que é usada para os games com mais violência, sangue e linguajar pesado. Mas qualquer jogo que explore a libido mais a fundo teria que obter uma classificação mais severa do que essa. É, no caso, a "Adults Only", que proíbe a venda do produto para qualquer pessoa que não seja legalmente considerado maior. Essa classificação existe, mas tanto a Nintendo quanto a Sony e a Microsoft (as fabricantes dos três principais videogames do mercado) não permitem que jogos com essa classificação sejam comercializados para suas máquinas, tornando inviável qualquer jogo do gênero no mercado atual.

Sendo assim, os jogos com temática adulta são restritos a MMOGs (jogos online em que você paga uma mensalidade) ou títulos obscuros para computador, muitas vezes vendidos no mercado japonês (região em que o erotismo é culturalmente mais aceito). Ou seja, é aquela "semi-legitimação" do erotismo que o cinema só conseguiu obter nos anos 70, sete décadas depois de sua criação. Na década seguinte, a de 80, o erotismo foi finalmente aceito de maneira ampla no mercado cinematográfico. Uma inevitabilidade que também deverá acontecer com os games. Resta, então, saber quando.

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