Sim, meu guru, treine comigo

Reuters

New York Times - Seth Schiesel
19.05.2008

Quando a Nintendo lançou o Wii, 18 meses atrás, a noção do que era um videogame caiu por terra. Ele ultrapassou o ambiente de games - restrito àqueles jovens pálidos, privados de sol - passando a agradar o restante do planeta com uma nova possibilidade de entretenimento mais intuitivo e familiar.
 
O console Wii começou a atrair mulheres, pais e até mesmo residentes de abrigos para idosos - com seu apelo simples de oferecer jogos, como tênis e boliche –, tornando-se o videogame mais vendido desta geração com mais de 25 milhões de unidades espalhadas pelo mundo e desaparecendo das prateleiras das lojas de norte a sul dos Estados Unidos. 

Agora, a nova criação da Nintendo, o “Wii Fit”, talvez cause o mesmo burburinho no mercado de fitness caseiro. Com lançamento marcado para a próxima semana nos Estados Unidos, a empresa não tem a intenção de tomar o lugar das academias com o novo título. Mas num mundo aonde um aparelho elíptico chega a custar US$3.000 e uma hora de personal trainer US$150, o sistema interativo de fitness tem alguma chance de se tornar uma versão de baixo-custo de uma academia em casa, alcançando o mercado globalizado de produção em massa. Lançado na Inglaterra no mês passado, o game já se tornou um dos mais vendidos de todos os tempos naquele país.  

Exercitar-se com o “Wii Fit” é como ter um renomado guru de malhação, do calibre de Bob Harper ou Denise Austin, monitorando os exercícios: ele vai induzindo o usuário, cuidadosamente, até mesmo com um pouco de bajulação - através de elogios e alguns cutucões -, inclusive ressaltando que comer uma banana de vez em quando é sempre bom.  Também é possível comparar seu desempenho em relação a amigos e familiares, pois cada usuário cria um guru pessoal, bem caricaturesco, chamado "Mii."

O novo sistema, que custa US$90 e deve ser usado com o console Wii básico (US$250), vem com uma "balance board", uma placa de equilíbrio sensível para ser colocada no chão e servir de apoio para diversas atividades, desde abdominais e yoga e até outras mais desafiadoras, como jogos e concursos de aeróbica. O público alvo não são pessoas com uma rotina séria de exercícios, mas aquelas que têm uma vida corrida, com o trabalho e a família, e buscam um pouco de diversão fazendo um pouco de ginástica em casa.   

Acreditem se quiser, mas tive de pedir ajuda. Como jornalista especializado em games, vivo em um mundo onde frango frito, salgadinhos e frituras em geral são considerados grupos alimentares. O mais próximo que consigo chegar de atividades físicas é me locomover, muito desajeitadamente, pelos shows musicais.

E, além do mais, a maioria dos americanos também não está em muito boa forma. Por isso mesmo me dei conta que devo representar a massa consumidora ao testar se um treinador físico cibernético tem potencial para resgatar milhões de americanos da decrepitude.

Para me ajudar a avaliar o novo sistema foram recrutados dois profissionais de fitness, um desportista ávido e um pai que trabalha em casa. Este grupo testou o  “Wii Fit” no complexo esportivo “Chelsea Piers”, em Manhattan.

Reuters

Propaganda do "Wii Fit", nos Estados Unidos

O multi-tarefa

Shira Weiss, 33 anos, trabalha em casa como assessora de imprensa para pequenas empresas e tem dois filhos. A residente de Teaneck, estado de nova Jersey, quer experimentar o “Wii Fit” por que ele cabe tanto em seu estilo de vida como em sua porta de entrada. Ela nos contou: “Antes de ter filhos, eu fazia ginástica todos os dias em uma academia, mas agora, só mesmo quando sobra um tempinho. Gosto de atividades aeróbicas, então tentei comprar uma esteira, mas a porta de nossa casa é muito estreita - a esteira simplesmente não entrou. “Esqueça essa tal esteira”, disse o meu marido”. Ele olhou para a pequena placa do “Wii Fit” dizendo: "Mas pode ser que isso funcione".

Os quase 50 exercícios do “Wii Fit” são divididos em quatro categorias: treino de força, aeróbica, jogos de equilíbrio e yoga. Cada usuário cria um perfil pessoal, incluindo uma meta de perda de peso. O sistema rastreia o peso e o índice de massa corporal do usuário, além do desempenho em exercícios individuais. Para evitar que iniciantes se machuquem, ou fiquem frustrados com o baixo desempenho, apenas alguns exercícios, em cada categoria, são disponibilizados inicialmente - o acesso às atividades mais avançadas só é possível depois que as opções mais simples foram realizadas.

Weiss se encontrou na seção de exercícios aeróbicos. Primeiramente, ela experimentou uma atividade que envolvia a execução de movimentos circulares, encontrando depois uma réplica de sua tão desejada esteira no game de corrida. Nessa atividade, ao invés do usuário utilizar a placa de equilíbrio, o controle do “Wii Fit” funciona como um pedômetro, que pode ser colocado no bolso ou carregado na mão enquanto o usuário corre, sem sair do lugar. Enquanto isso, um marcador de ritmo surge na tela para estimular o desenvolvimento do usuário, tendo a paisagem bucólica de um parque como pano de fundo. Para corridas mais longas, o usuário pode assistir TV enquanto o Wii vai registrando seu progresso. 

"Achei divertido”, disse a assessora de imprensa, continuando: “É bem mais interessante que correr na esteira, pois você tem algo para ficar olhando. É como um game de ginástica interativo. Às vezes, parece que você está jogando videogame, mas com o seu corpo”.

Conclusão: O Wii Fit pode ser a opção apropriada para desportistas amadores que buscam entrar em forma no conforto da sala de estar.

O fanático por academia

Luke McCambley tem 18 anos. Ele sabe que é uma anomalia.

"É difícil encontrar fanáticos por malhação em faculdades de artes, mas acho que posso me candidatar", disse ele.

O estudante de artes visuais nova-iorquino é o único a possuir um “Wii Fit” dentre as pessoas escolhidas para testá-lo. Ele é associado da academia Crunch, onde treina seis vezes por semana, e está se preparando para se tornar personal trainer.

Por isso não é surpresa nenhuma que tenha tido poucos problemas com os diferentes níveis de exercícios, como abdominais e extensões de pernas. Ele se mostrou um exímio esquiador e parecia que ia furar a tela, tamanha a força de seus socos na seção de boxe aeróbico.

"Freqüento uma academia, então não preciso disso. Mas para alguém que quer se exercitar sem sair da sala de estar é uma ótima escolha”, disse ele, continuando: “No geral, gostei muito. Parece bem projetado para as pessoas para quem foi feito. Cheguei até a suar em alguns exercícios”.
 
Ele conclui: “Se você levar os exercícios de força a sério, pode atingir resultados. Agora, se quiser entrar em forma pra valer, entre em uma academia. Mas acho que deve ser ótimo para as mães, ou para as crianças se exercitarem um pouco”.


Conclusão: Atletas não precisam do “Wii Fit”, mas você (ou seus filhos) provavelmente irá aprová-lo.


O praticante avançado de yoga

Entretanto, talvez o “Wii Fit” não seja a melhor escolha caso você queira impressionar Cyndi Lee (54 anos), fundadora do estúdio nova-iorquino Om Yoga. 

Antes mesmo de testar o novo sistema, ela deu uma olhada na placa de equilíbrio e já foi logo dizendo: “É pequena demais”. Mesmo assim, experimentou uma seqüência de posturas de yoga, incluindo a postura da meia-lua, guerreiro e saudação ao sol. O usuário deve colocar uma das mãos ou pés sobre a placa enquanto executa cada postura.

Depois de tudo, sua preocupação principal é que o “Wii Fit” limite o yoga a uma série de exercícios físicos, ao invés de apresentá-lo como algo mais abrangente, que visa não somente o bem-estar físico, mas também o mental e o emocional.

"O sistema ensina o yoga mais pela perspectiva de ginástica, ou malhação”, disse ela, completando: “você ouve coisas do gênero “contraia os glúteos”, que nunca diríamos em uma aula de yoga”.

Lee também detectou o que chamou de elementos incorretos em algumas posturas. Ela disse: “Por exemplo, na postura do guerreiro o joelho é mostrado ultrapassando a linha do pé dianteiro, o que é um erro grave”.

Conclusão: Você não vai se tornar um yogi com o “Wii Fit”.


O profissional de fitness

Sharone Huey, 51 anos, é fisiologista do exercício do complexo esportivo de Chelsea Piers. Foi ela quem passou mais tempo testando o “Wii Fit”: ao longo de dois dias, assistiu quase todas as outras seções e passou pelo menos duas horas e meia usando o sistema sozinha. 

Seu ceticismo inicial foi se transformando em certa admiração.

"Na verdade, achei o sistema muito bom. Você pode, sim, fazer um bom treino com ele. Logo que comecei a usá-lo, percebi que todas as atividades foram bem projetadas. Não gostei de algumas coisas, como o alinhamento em alguns lugares, mas, no geral, acho que fizeram um ótimo trabalho. Será uma ótima ferramenta para pessoas que não conseguem freqüentar uma academia”. 

"Imagino que seria muito bom utilizá-lo em um centro comunitário para a terceira idade; seria muito interessante ter uma classe inteira usando as placas e medindo o progresso individual”, afirmou Huey, campeã invicta da atividade “hula-hoop” durante toda a semana. 

"Tanta gente compra uma esteira, ou outro aparelho de ginástica, que em poucas semanas acaba se tornando um cabide de roupas bastante caro. O “Wii Fit” faz a ginástica se tornar divertida; acho que muitos preguiçosos vão acabar se motivando com ele”, completou a fisiologista. 

Dentre eles, certamente alguns membros da família Huey. “Vou comprar um para minhas irmãs preguiçosas”, disse ela.

Conclusão: Aguarde o possível lançamento da aula de “Wii Fit” no Chelsea Piers (talvez fique só na idéia).


O preguiçoso que não sai da frente da TV


E aquele sujeito preguiçoso, que passa o dia todo deitado no sofá, assistindo TV? Nessa mesma época no ano passado, fui ao estado de West Virginia para escrever sobre um projeto local de instalar o videogame de aeróbica "Dance Dance Revolution" (DDR) em todas as escolas do estado. Quando voltei para casa, pensei: “Bem, vamos ver se consigo manter um programa de exercícios regulares em casa usando o DDR".

Durou uma semana. O problema foi que, em alguns dias, não tinha um pingo de vontade de ficar dançando, por uma hora e meia, ao som de música eletrônica. Talvez com o “Wii Fit” seja diferente (embora mais de um dos participantes do teste tenham reclamado da música). Para mim, o principal é que tudo é abordado como um game no “Wii Fit”. As atividades são extremamente variadas, você sempre pode encontrar algo para fazer. Ele leva o usuário a desvendar diversos exercícios e ir acumulando pontos, seja no snowboard ou nos exercícios abdominais.
 
Outro dia passei sete horas no “Wii Fit”, e ainda assim não me cansei dele. Os exercícios de step ainda são meus favoritos, embora também esteja tentando descobrir como usar o equilíbrio para atravessar o canyon dentro da bolha flutuante sem que ele se arrebente. E estou praticando até um pouco de corrida.

Mas tenho consciência que nenhuma parafernália eletrônica (ou roupa de ginástica da moda) consegue compensar a boa e velha motivação. Se eu parar de usar o “Wii Fit”, não será por que o design ou o som são ruins. Será simplesmente porque cansei de me exercitar, e um mero produto não será o responsável por isso. Será que conseguirei atingir minha modesta meta de perda de peso? Só espero que sim. 

Não precisa insistir, pois não vou contar qual é minha meta.

Leia mais sobre Wii Fit.

 



ÚLTIMOS REVIEWS

Ver todas »