Atari: o mito, a lenda e o legado

Claudio Prandoni
13.06.2008
Até pouco tempo, falar de videogame era falar da linha PlayStation por conta do imenso sucesso angariado pelo PSone e PS2. No final dos anos 80 e início da década seguinte a grande estrela era a Nintendo, que despontava no mercado com o NES, Game Boy e o SNES. Por conta do imenso êxito obtido por essas marcas, viraram durante certo tempo sinônimo de jogos eletrônicos.
Não se perguntava se você tinha um console, mas sim se você possuía um Nintendo. Alusões, por mais sutis que sejam, em filmes e seriados geralmente apelam nos últimos tempos aos padrões estabelecidos pela Sony – controles no formato do Dual Shock e botões representados por figuras geométricas. Ano passado, por exemplo, a Elma Chips colocou no mercado duas versões especiais do Cheetos com temática de videogame nos quais os salgadinhos eram em formato de triângulo, círculo e xis.
Outra prova disso é uma reportagem do jornal norte-americano The Times de abril deste ano no qual o autor do texto se refere ao atual console caseiro da Nintendo como o “Sony Wii”.
Enfim, falo tudo isso para ilustrar a importância da Atari, empresa que ensejou a consolidação dos jogos eletrônicos como forma de entretenimento há mais de 30 anos e incitou pela primeira o fenômeno supracitado com Sony e Nintendo, mantendo-se como sinônimo de videogame durante quase uma década.
Xeque-mate na diversão eletrônica
Fundada em 1972, na Califórnia, a Atari inicialmente teria um nome muito mais complicado e inexpressivo: Syzygy. Para sorte de Nolan Bushnell e o sócio Ted Dabney o nome já estava registrado, obrigando-os a selecionar outro. Atari deriva do Go, uma espécie de xadrez japonês, e seria o equivalente ao xeque-mate – além de ter significados de conotação positiva no idioma nipônico.
Um dos primeiros projetos realizados pela empresa novata foi uma recriação para fliperamas do jogo de tênis criado pela Magnavox para o console caseiro Odyssey, lançado no mesmo ano. Assim nasceu o clássico Pong.
A boa fortuna estimulou a Atari a desenvolver outros títulos que confluíram para a criação da obra-prima da empresa em 1975, o Atari 2600. Trazendo para o conforto do lar recriações perfeitas dos Arcades, o aparelho deslanchou em vendas, sobrepujando com facilidade os concorrentes. O sucesso atraiu a atenção da Warner, que adquiriu a Atari um ano depois por cerca de 30 milhões de dólares.
Todavia, o êxito incomparável virou-se contra a própria companhia. A oferta de games superava com ampla margem a demanda, resultando em estoques encalhados. Da mesma forma, estúdios em demasia almejaram uma fatia do bonito bolo que se tornou o mercado de entretenimento eletrônico, colocando nas prateleiras muitas produções de baixíssima qualidade, empobrecendo a biblioteca do Atari 2600.
Tal situação culminou no chamado “Crash de 83”, quando a economia da indústria gamer entrou em colapso, quase deixando de existir no ocidente. Data desse período o famigerado rumor de que a Atari enterrou milhares de cartuchos de E.T., Pac-Man e outros que ficaram encalhados nas lojas. A história só mudaria eventualmente em 1985, por conta do NES.
Nesse ínterim, a Warner vendeu a Atari para o empresário polonês Jack Tramiel pelo equivalente a 240 milhões de dólares em ações.
Sob o novo comando, a empresa expandiu a linha de consoles, concebendo versões econômicas e atualizadas do Atari. O período foi marcado também por duas audaciosas – e mal fadadas – investidas da empresa: o portátil Lynx, 1989, e o console caseiro Jaguar, o primeiro 64-bits da história dos videogames.
Perdendo cada vez mais espaço na indústria, a companhia foi novamente vendida em 1998, dessa vez por irrisórios 5 milhões de dólares, à Hasbro Interactive. Um par de anos depois a Infogrames adquiriu a Hasbro, levando junto também a Atari. A softhouse francesa continuou publicando jogos sob a clássica marca, inclusive renomeando algumas filiais com a tradicional alcunha. Atualmente, Atari e Infogrames estão em vias de fusão, o que tornaria a antiga cria de Nolan Bushnell um estúdio interno da publisher.
O passado ainda presente
Uma história dotada de tamanho pioneirismo e reviravoltas certamente não se esvai tão fácil da memória dos gamers. Assim, mesmo que a Atari de hoje não ostente uma ínfima parcela do brilho de outrora, ainda evoca sentimentos e demonstrações impressionantes de apreço.
Isso se sintetiza perfeitamente na figura dos colecionadores, aficionados por consoles antigos, que constituem verdadeiras raridades. Um dos principais representantes de artigos relacionados à Atari no Brasil é Marcus Chiado, de 35 anos que há 13 reúne também unidades de microcomputadores 8-bits.
Arquivo

Marcus Chiado
“Embora a Atari não tenha criado exatamente o primeiro videogame, ela foi peça essencial para a popularização do produto enquanto nova forma de brinquedo no mundo”, explica. Marcus aponta também o motivo que considera ter sido crucial para o sucesso da empresa: “Nolan Bushnell era um visionário e inovador na gestão de funcionários, especialmente programadores de jogos, deixando-os trabalhar à vontade e sem horário de trabalho fixo. Isso traduziu-se no sucesso dos jogos que a empresa produziu; simples e rústicos, mas repletos de criatividade; foi uma época de essenciais desbravamentos videogamísticos”.
Todavia, o legado da era de ouro da Atari não se reflete apenas no sentimento nostálgico de muitos jogadores – que, aliás, são brindados constantemente com coletâneas de títulos dos antigos consoles para novos aparelhos (há dezenas delas). Outros itens incluem um relançamento do próprio aparelho, o Atari Flashback, que já vem com dois controles, cabo composto para conectar à TV e diversos títulos na memória.
Outra homenagem interessante vem por meio da moda, que usa games do Atari como inspiração para camisetas e outras vestimentas. Isso varia desde grifes famosas até redes populares, como a Renner, que na coleção passada de verão criou uma estampa com o joystick do videogame em destaque.
A celebração e consolidação máxima da herança desse período marcante da indústria do entretenimento promete ser o longa-metragem Atari, em produção pela Paramount e o estúdio Appian Way, o qual um dos donos é o ator Leonardo DiCaprio. Inclusive, especula-se até que o ator consagrado em Titanic e tantas outras películas represente o próprio Nolan Bushnell, rumor ao qual o fundador da Atari classificou como algo “emocionante e uma honra”.
Tantas demonstrações de carinho e afeição pela Atari mesmo mais de duas décadas após a derrocada do momento mais glorioso da companhia denunciam o papel decisivo que ela desempenhou. “A Atari não existe mais em sua grandeza, porém é seguro dizer que caso a história tivesse sido diferente, provavelmente o mercado atual de videogames seria outro”, é a opinião de Marcus Chiado. “Ai dos gamers se a Atari não tivesse existido!”, completa.
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