“Haze”

Bruno Spingola
04.07.2008
“Haze” é um exemplo clássico de como grandes expectativas podem ter um papel negativo no lançamento de um jogo. Desenvolvido basicamente pela mesma equipe responsável por pérolas como “GoldenEye 007” e “Perfect Dark”, “Haze” não consegue honrar o legado deixado pelos jogos anteriores da Free Radical. Para ser sincero, não passa nem perto disso.
O game já começa desapontando, com cenas de “animação” sem conteúdo, repetitivas e cansativas. A trama futurista fica clara nos primeiros dois minutos: seu personagem, Carpenter, é um mercenário contratado por um exército corporativo privado que droga seus soldados com a substância Nectar, que melhora seu desempenho no campo de batalha. No jogo, a corporação Mantel é convocada para enfrentar uma insurreição de “terroristas” sul-americanos conhecidos, descritos pelos mercenários apenas como “Casacos de Pele” – devido à lenda de que vestem as peles de seus inimigos, claramente um artifício da corporação para instigar ainda mais ódio nos seus soldados. Como se o efeito alienador da droga já não fosse suficiente.

Seus colegas de profissão mais parecem homens das cavernas machistas e estúpidos do que soldados de fato, fazendo piadas e brincadeiras que deixariam Debi e Lóide envergonhados. Os diálogos entre eles são previsíveis e longos demais, mais um motivo pra se sentir aliviado quando entra de fato no campo de batalha. Como se não bastasse a chatice, às vezes esses diálogos são interrompidos por cenas bugadas em que nada acontece, e os personagens ficam apenas parados em um loop constante, no melhor estilo “eXistenZ” (clássico filme de David Cronenberg baseado em vídeo-games).
No campo de batalha, porém, a matança dá novo ritmo ao jogo. Pelo menos aqui a equipe da Free Radical mostra o que sabe fazer de melhor, e a jogabilidade é fluída e precisa. Como soldado Mantel, você tem a opção de injetar-se com Nectar, aumentando sua velocidade, sua resistência a danos e a facilidade para enxergar seus inimigos. Na verdade deixando o jogo até fácil demais. O suprimento de Nectar é limitado, mas sob o efeito da droga, cada inimigo morto significa uma carga extra da droga na sua corrente sanguínea, em uma referência bem bacana ao vício causado por ela. E cuidado pra não abusar, uma overdose causa um efeito de desorientação no seu personagem e você pode acabar matando seus próprios companheiros – não que eles não mereçam, mas isso torna sua missão um pouco mais difícil.
Apesar de a mecânica ser interessante, ela não dura muito, e após algumas breves fases seu personagem já está se debandando pro lado dos “terroristas”. Acontece que, obviamente, eles não são os bárbaros descritos por seus patrões, mas uma organização libertária chamada Promise Hand, que luta contra o Cartel de drogas implantado por empresas como a Mantel. Um dos objetivos aqui, por exemplo, é queimar plantações da droga utilizada pelas grandes corporações. A mudança de lado não melhora a qualidade da história ou dos diálogos, que continuam previsíveis e repetitivos – chega um ponto no qual desligar o som do jogo torna-se inevitável. Seus companheiros de batalha dispõem de apenas duas ou três frases de incentivo, e a repetem com a mesma freqüência que atiram.

Os rebeldes sul-americanos não se injetam com Nectar, mas nem precisam– enxergar seus inimigos com clareza é tarefa pré-escolar quando eles usam armaduras amarelo fluorescente “cheguei!”. A droga aqui é usada de maneira menos direta, mas não mais politicamente correta. Os “terroristas” arremessam nos adversários granadas e faquinhas banhadas de Nectar, causando nas tropas inimigas o efeito de overdose e desorientação que você conheceu tão bem em sua fase junkie. Soma-se a isso a habilidade de fingir de morto (útil apenas no modo multiplayer, pois inimigos controlados por AI muitas vezes continuam atirando apesar do truque) e táticas ninjas de desvio de balas (pressionando o botão de pulo duas vezes rapidamente). O resultado é um modo multiplayer pra lá de desequilibrado.
O que mais desaponta, porém, é a engine gráfica. Principalmente pelo fato de ter sido lançado como exclusividade para o Playstation 3, os gráficos de “Haze” são estratosfericamente sofríveis. A maioria das fases parece ter sido feita para a plataforma anterior da Sony, e só passam desapercebidos quando em altíssima velocidade. Sempre que estiver em um momento mais lento do game dá pra notar claramente a pobreza das texturas e renderizações. O fogo do lança-chamas em particular é vergonhoso, até meu computador 486 de quinze anos atrás seria capaz de rodar sprites assim.

Outro ponto de destaque é a “inteligência” artificial do jogo. Freqüentemente soldados inimigos ficam parados no meio do campo de batalha aberto, olhando para o céu como se implorando aos seus criadores por mais neurônios digitais. Jogue uma granada e assista um soldado olhando pra ela por 3 segundos, apenas para mergulhar em sua direção na seqüência. Mais um caso de situação hilária não intencional por parte dos desenvolvedores. O balanceamento está no fato de que seus companheiros utilizam da mesma “inteligência” artificial: freqüentemente eles irão tomar um headshot ao cruzar seu campo de visão enquanto você senta o dedo nos inimigos. As vantagens únicas de cada exército também não são utilizadas pela IA, o que é lamentável, pois acaba de certa forma anulando o próprio enredo do jogo.
Mas o game não é de todo ruim. Apesar de todos os defeitos, algumas das missões mais tardias do jogo são emocionantes e bem construídas, valendo todo o sacrifício para chegar até elas. O modo co-operativo de até quatro pessoas livra o jogador do peso da IA estúpida e torna o jogo mais divertido. A trilha sonora por sua vez pode ser considerada o ponto forte do jogo, dando uma adrenalina extra aos combates. E o multiplayer on line com até 16 jogadores garante sobrevida à experiência. É possível disputar partidas em modos Deathmatch, Team Deathmatch e Team Assault – o último sendo guiado por objetivos relacionados à sua facção.
Em última análise, “Haze” é definitivamente um jogo que não pertence a essa geração. Conceitos interessantes, infelizmente não aproveitados de forma eficiente ou inovadora, fazem dele um game que poderia ter sido grandioso. Poderia, mas não é.
Produtora: Ubisoft
Desenvolvedor: Free Radical
Gênero: Tiro em primeira pessoa
Jogadores: 1-4
Nota: 5.5
Leia mais sobre: Haze