“Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots”

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Bruno "Bagaço" Vasone
08.07.2008

Umas das maiores vantagens de ser um entusiasta dos games é poder acompanhar a história de uma mídia relativamente nova sendo construída diante de seus olhos – e dedos calejados. Pois um desses momentos históricos acaba de acontecer, e ele se chama “Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots (MGS4)”. Nunca um game atingiu tamanho grau de primor artístico, acompanhado por ótima jogabilidade e um roteiro de deixar Hollywood com inveja.

Distribuido pela Synergex, a lista de inovações que "Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots" apresenta ultrapassa as características tradicionais de um jogo, como gráficos ou jogabilidade, cravando a mídia finalmente como o meio de expressão artística que ela sempre mereceu. Não que a mídia não merecesse essa designação antes, mesmo com games anteriores da própria franquia, mas “MGS4” alcança um nível tão alto nesse patamar que torna impossível ao olhar “novato” e muitas vezes preconceituoso que vem de fora da indústria não reconhecê-lo como tal.

“Metal Gear Solid 4” também fecha com chave de ouro a trajetória de seu protagonista, Solid Snake, iniciada a mais de 20 anos, um descanso aliás muito merecido. A trama acontece cinco anos depois do término de “Metal Gear Solid 2”, no ano de 2014. Ao invés de guerrilhas isoladas ao redor do globo, o mundo inteiro foi tomado pela máquina de guerra. A economia mundial é governada pela destruição e seus arautos, as Corporações Militares Privadas, ou PMCs no jogo, que respondem a quem pagar mais. A nanotecnologia domina os campos de batalha, aumentando as habilidades dos soldados ao mesmo tempo em que oferece uma ferramenta de controle mais precisa a seus empregadores – agora mais do que psicológica e ideológica, também física.

A temática de toda a série “Metal Gear” sempre refletiu as filosofias e opiniões pessoais de seu autor e diretor, Hideo Kojima, em relação aos impactos da tecnologia e controle político sobre as guerras modernas. O primeiro “Metal Gear” foi lançado em meio a Guerra Fria (1987), e lidava com o tema da manipulação de soldados por políticos, tanto no Ocidente como no Oriente, e introduziu o conceito de Paraíso Exterior (Outer Heaven) à série – um ideal de país totalmente livre de políticos. Desde então, cada jogo da série abordou temas mais contemporâneos com suas datas de lançamento, mas sempre tendo como estrela guia essa temática, reflexo da mesma filosofia que permeou o cinema de guerra japonês pós-Hiroshima. O absurdo da dissuasão nuclear, as implicações morais da engenharia genética no campo de batalha, os efeitos psicológicos causados pela guerra em crianças e adultos, a idéia de que inimigos são fundamentalmente apenas inimigos, e os tipos de motivação que levam as pessoas a cometer atrocidades, sejam baseados em censura ideológica ou cultura cotidiana de uma sociedade. Todos esses temas merecem uma análise inteira por si só, que não caberia aqui dado imensidão deste último jogo da série para ser coberta. Portanto, vamos em frente com o mundo da “fantasia”.

Em “MGS4” o “meio-irmão” de Solid, Liquid Ocelot, controla cincos das mais fortes dessas PMCs, e agora planeja tomar para si o “SOP”, Sons of the Patriots, sistema que controla a nanotecnologia de guerra. Para piorar, Solid Snake é vítima de uma doença genética que causa envelhecimento precoce, dando ao herói um prazo máximo de seis meses de vida. E assim, o jogo começa quando Snake é recrutado pelo antigo coronel Campbell para infiltrar-se no Oriente Médio e assassinar Liquid. Uma missão que, claro, é mais simples dita do que executada.

Além da imensidão de sua máquina de guerra, Liquid ainda possui um trunfo: uma unidade especial de combate chamada Beauty and the Beast, que essencialmente são os quatro chefes intermediários do jogo. Quatro mulheres lindas que sofrem de problemas psicológicos pós-traumáticos causados por situações de violência armada distintas em diferentes locais do globo, agora transformadas em máquinas de guerra. São também em certo grau baseadas nos planteis de chefes dos games anteriores da série. Suas lutas são intrigantes, criativas e extremamente sensuais: após derrotar a Besta, você ainda deve lidar com a Bela que controlava a armadura.

Todos os movimentos foram gravados por quatro modelos, que encenaram nuas para a equipe de Kojima, mas infelizmente não puderam aparecer como vieram ao mundo dentro do game – snif, snif. Durante a luta, porém, é possível acionar um easter egg, fugindo de suas formas humanas durante três minutos. A tela ficará branca, e elas irão dançar ao som do iPod de Snake, ou fazer poses quando você aciona sua câmera fotográfica. Na minha modesta opinião, um pouco de beleza digital é muito bem vinda no meio de tanto macho peludo e ensangüentado.

A trama também reintroduz praticamente todos os personagens importantes que participaram dessa trajetória de mais de vinte anos da franquia. Fechando com chave de ouro a cronologia de “Metal Gear Solid”, todas as pontas são amarradas e explicadas em seus mínimos detalhes, o que algumas vezes acaba prejudicando levemente o ritmo do jogo, com cutscenes que chegam a durar até 45 minutos. Mas levando em consideração o primor técnico das mesmas – e a possibilidade de pausá-las – dá pra relevar e preparar uma pipoca sempre que elas têm início.

O geek Otacon está de volta como seu principal aliado, e é responsável por engendrar algumas das principais novas mecânicas do jogo. Além do Solid Eye System, um dispositivo ocular que apresenta informações detalhadas do campo de batalha, além de visão noturna e binóculos, há a muito bem vinda veste Octocamo, que permite uma camuflagem rápida e segura em apenas alguns segundos, apenas encostando-se à superfície desejada. Uma chacoalhada no controle do Playstation 3 restaura à veste seu padrão original. Um círculo digital que aparece ao redor do personagem ajuda a perceber de qual direção está vindo o perigo.

Mas talvez a mais importante das suas novas parafernálias eletrônicas seja o micro robô Metal Gear Mk.II, que é muito mais que um pedaço de lata fofinho. Em modo stealth, ele pode atuar como escolta e infiltrar-se nas linhas inimigas com discrição, e até mesmo nocautear um soldado com seu tentáculo de eletro choque. O robozinho também é sua principal forma de comunicação com o mundo, e um canal direto com Drebin, um misterioso traficante de armas, acompanhado de um macaco pra lá de pentelho. Através de Mk.II, Drebin pode vendê-lo uma infinidade de armas e munições, além de remover travas de segurança de armamentos que você adquirir. Também é possível adicionar melhorias às suas armas, como lançadores de granadas e miras laser, tudo isso em troca de Pontos Drebin, que são adquiridos coletando armas no campo de batalha para o traficante.

Tanto armamento é reflexo de um estilo de jogabilidade coringa inédito na franquia. A tradicional jogabilidade furtiva em stealth, marca registrada da série, é acompanhada em “MGS4” de uma grande melhoria no sistema de combate direto. Agora você pode partir pro tudo ou nada com muito mais freqüência e tranqüilidade, com uma câmera sobre o ombro ou diretamente na mira de sua arma. Os controles requerem precisão e treino, mas quando dominados resultam em momentos de glória, principalmente nos inúmeros easter eggs escondidos pelas fases.

O campo de batalha na maioria dos cinco atos do jogo apresenta uma disputa entre milícia e PMCs, e você pode obter ajuda de um deles ao auxiliá-los em combate. Mas se você não é muito de fazer amigos, não se preocupe: com um arsenal tão vasto de armas e a nova jogabilidade é possível entrar em um frenesi de combate e simplesmente aniquilar tudo que passar na sua frente. A melhor coisa, claro, é usufruir dos três modos de jogo que o game oferece, proporcionando uma rica experiência de múltiplos tipos de jogabilidade inédito nos games anteriores, e que recompensa a senão linearidade simples e estreita das fases.

Esse mix de estilos é recomendado principalmente pela influência de alguns fatores no seu desempenho. Dois novos medidores acompanham sua barra de vida em “MGS4”, que são termômetros do estado mental do personagem: psique e stress. A psique afeta como o personagem reage aos seus comandos, assim como sua pontaria. Sua taxa de regeneração depende do seu nível de stress, que aumenta sempre que lutando por muito tempo em campo aberto ou ambientes hostis. A maneira mais simples de combater o stress é ficar sempre nas sombras, mas como isso nem sempre é possível, fumar um cigarrinho pode ajudar a restabelecer um nível aceitável no medidor – ao custo de perder um pouco de vida. Sua psique, por outro lado, pode ser recuperada tomando energéticos ou folheando uma revista de sacanagem – ninguém é de ferro, meu amigo!

Todos os medidores, incluindo o de vida, podem ser lentamente recuperados apenas ficando quietinho em algum canto. Preste atenção ao escolher o local, pois a inteligência artificial aqui é bem afiada. Uma vez em modo de alerta, os soldados irão agir em equipe, chamar reforços e vasculhar esconderijos comuns: simplesmente fingir de morto ou se esconder em uma caixa ou barril de latão não vão salvar sua pele.

No quesito gráfico, “Metal Gear Solid 4” é absolutamente estonteante. Uma direção artística de excelência nunca antes vista na história dos games é acompanhada por aspectos técnicos dignos de nova geração, tanto na física dos movimentos e explosões como na impressionante renderização em tempo real dos cenários e personagens. Uma ou outra textura mal acabada pode aparecer quando em zoom, mas acaba passando despercebida em meio à imensa riqueza de recursos gráficos do game.

As cutscenes em particular são intensamente longas, como já é de se esperar de um jogo da série – como dito, algumas chegam a ultrapassar a marca dos 45 minutos – tornando a atualização do seu estoque de pipoca mandatória pra jogar “MGS4”. Por vezes, monólogos informativos que mais parecem uma palestra em PowerPoint dão uma aula de história sobre o universo de “Metal Gear”, ajudando os jogadores novos a se familiarizarem com as duas décadas de conteúdo da franquia, e refrescando a memória dos veteranos. Porém, eles não são tão freqüentes, e as cutscenes em sua maioria são belissimamente dirigidas, com direção de câmeras e narrativas superiores a grandes produções hollywoodianas. Cenas de ação e batalhas de tirar o fôlego, acompanhadas de diálogos dramaticamente emocionantes e momentos de humor pastelão, fazem de MGS4 uma experiência completa para ser assistida por toda a família no melhor cômodo da casa.

As cenas são quase todas interativas, sendo que freqüentemente é possível mudar o ângulo de visão ou acionar flashbacks de jogos anteriores, baseados no momento atual da trama. Se a natureza chamar, não se preocupe, é possível pausar e retomar a ação quando voltar sem perder nenhum detalhe. Por outro lado, jogadores sem paciência, com urgências psicopatas para serem atendidas, podem atropelar todo o “blábláblá” e partir direto pra ação. A transição entre as cutscenes e o jogo de fato é sutil e rápida, melhorando a integração dos vários recursos de apresentação do jogo. Sempre que um novo ato começa é necessária uma instalação que leva alguns minutos – mesmo carregando um save de outro ato. A espera é recompensada por um tempo ridiculamente mínimo de loading em game.

A parte sonora é a cereja do bolo fúnebre da série. A trilha é simplesmente espetacular, combinando perfeitamente com o clima de nostalgia e extermínio iminente do jogo. A adição de um iPod ao seu arsenal permite ouvir trilhas dos games anteriores, além de podcasts produzidos especialmente para acompanhá-lo no campo de batalha. As dublagens estão mais perfeitas do que nunca, principalmente Snake, reforçando a carga emotiva iminente do diálogo.

Em adição ao jogo principal, algumas ferramentas completam a experiência. Com o Virtual Range é possível praticar sua mira com todas as armas de seu arsenal. Na galeria é possível ver todas as fotos tiradas durante sua campanha – inclusive das Belas sem as Bestas hmmm. Também pode ser baixada na loja virtual do PS3 a “Metal Gear Solid 4: Database”, uma espécie de biblioteca virtual completa com todos os dados crus da série, linhas do tempo e diagramas de ligação entre os personagens. Informações relativas ao último game são travadas até que o usuário complete o game, pra não revelar nenhum spoiler.

Finalmente, completando o “bundle”, há o “Metal Gear Online (MGO)”, que é considerado pela Kojima Productions um jogo a parte, com potencial de atualização para até 10 anos. Segundo o estúdio, o “MGO” presente em “Metal Gear Solid 4” é apenas um pacote básico de introdução: ele eventualmente será lançado como produto independente pela PSN. Da maneira como é apresentada agora, “MGO” possui sete mapas diferentes com diversos modos de combate, para até 16 jogadores – muitos deles baseados em trabalho de equipe e ações furtivas. Os comandos são idênticos ao jogo normal, e seu personagem evolui com o tempo, e pode até vir a criar um clã quando atingir nível suficiente para isso.

Apesar de tecnicamente ser uma seqüência, “Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots” é um game absolutamente completo em si mesmo. Conhecer os jogos anteriores da série não é uma necessidade para novos jogadores, mas recompensa os mais veteranos devido à intensa carga dramática envolvendo personagens que estiveram presentes nos mais de vinte anos da franquia. É um jogo que absolutamente DEVE ser jogado para ser compreendido e apreciado em sua totalidade, como ele merece.

A riqueza do título como game, crítica social e obra de arte, é digna de apreciação não só por entusiastas do gênero, mas por todo ser humano que busca cultura de alta qualidade e inteligente. Fundamentalmente, trata-se uma despedida monumental para um herói lendário, Solid Snake, que marcou uma cicatriz profunda e eterna na história dos games. E cujo último capítulo de sua vida abre as portas de uma nova era para os videogames como forma de entretenimento e expressão artística.

Produtora: Konami
Desenvolvedor: Kojima Productions
Gênero: Ação Moderna Furtiva em Terceira Pessoa
Jogadores: 1
Nota: 9.8

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