Mago da sala de recreação, herói on line

New York Times - Reprodução

New York Times - Dave Itzkoff
12.08.2008

Os sons estavam vindo do porão: ruídos rápidos e breves de plástico contra plástico, centenas de vezes por minuto, muito velozes e ordenados para serem descritos como chacoalhados e muito rítmicos para serem considerados barulhos.


No ambiente escada abaixo da casa de sua família, Chris Chike estava sentado numa poltrona com uma guitarra de brinquedo no colo. Enquanto seus olhos estavam mirados na TV de tela grande a polegadas de distância, as mãos estavam freneticamente operando no instrumento surrado de plástico que se mantinha inteiro com fita adesiva. A mão esquerda estava apertando mecanicamente os cinco botões coloridos no braço da guitarra, ao passo que a mão direita fazia movimentos graciosos entre o braço e um grande botão preto no corpo da guitarra, em que um músico de verdade estaria dedilhando cordas.

Os movimentos eram precisamente coreografados com a ação no aparelho de televisão, em que notas musicais codificadas e coloridas desciam pela tela no braço de uma guitarra simulada em tempo para uma balada de heavy-metal incansável e bombástica chamada “Through the Fire and Flames.” 1,191 notas passariam rapidamente antes de Chris errar uma delas.

Crédito: New York Times - Reprodução

Chris Chike

Este é o ritual agora familiar de “Guitar Hero,” a série de videogame que permite aos jogadores (e espectadores) replicar a carga de adrenalina de um concerto de rock enquanto Eric Claptons e Pete Townshends da sala de recreação apertam botões na hora certa em músicas populares, marcando pontos ao exibir a coordenação mão e olho mesmo se não têm habilidades musicais.


Se Chris não estivesse um tanto ocupado, ele poderia dizer que é, por algumas medições de objetivo, o mais talentoso jogador de “Guitar Hero” que existe: não apenas bom o suficiente por ter atingido inúmeros recordes de pontuação máxima, mas tão habilidoso que potencializou sua mistura peculiar de destreza atlética e exibicionista em celebridade online e a recente carreira desenvolvendo e endossando sua própria linha de hardware de videogame. Mas no momento, outra seqüência de notas estava prestes a descer até ele. “O caos,” ele disse, “começa agora.”


Apesar de sua habilidade sobrenatural, Chris, que fará 17 anos no domingo, iria parecer só mais um jogador ávido que ajudou a fazer da franquia “Guitar Hero” um sucesso fascinante. Foram vendidas mais de 20.7 milhões de cópias em todo o mundo desde a estréia há somente três anos.


No entanto, para a indústria dos games Chris representa exatamente o tipo de jogador – o homem-espetáculo estranhamente talentoso – que pode trazer mais revenda e legitimidade aos negócios, e provar de uma vez por todas que os jogos são um passatempo americano tão mainstream quanto ir ao cinema ou assistir televisão.

“Muitas pessoas ainda têm a percepção de que os jogadores são bitolados de 13 anos enfiados no quarto,” disse Keith Pullin, editor da versão de jogadores do livro dos recordes Guiness, o qual recentemente declarou Chris como o melhor jogador de “Guitar Hero” do planeta. “Mas Chris é um ótimo exemplo de como você pode ser uma pessoa saudável e ainda ser boa nos videogames ao mesmo tempo.” Tudo isso pode ser um pouco grandioso para um jovem de fala mansa que ainda não tem certeza de como quer se definir.


“Quando aparecer alguém novo”, disse Chris, “meus amigos vão falar, ‘Ei, você sabia que este é o número 1 do mundo em “Guitar Hero?”’ E vou ficar meio...” Ele escondeu a cabeça nas mãos. “Essa não é a primeira coisa que quero falar para as pessoas quando conhecê-las.”


No seu cotidiano, Chris está no último ano do Ensino Médio na Century High School; tem 1,88m, é masculinamente bonito, jogador de futebol, saltador em altura e a distância no principal time de atletismo e dolorosamente tímido nas conversas, particularmente sobre seus planos para a faculdade. “Não gosto de pensar sobre isso,” disse durante uma entrevista pré-jogo, “porque gosto de adiar.”

Mas para milhões de usuários da Internet ele é mais conhecido como iamchris4life, o prodígio de “Guitar Hero”, cujas pontuações astronômicas e vídeos no You Tube das peripécias nos jogos são, para esses fãs, tão emocionantes quanto jogar o game de fato. Nas mensagens enviadas para a conta de Chris na rede Xbox Live e em recados postados em sua página pessoal do You Tube eles declaram devoção: “cê eh bom.” “ker se casar comigo?”


O mais jovem de quatro filhos, Chris teve quase todos os videogames de mesa desde o Super Nintendo dos anos 1990 (todos dados por seu pai, Anthony, 52, que dirige um negócio de computadores, e sua mãe, Claudia Knowlton-Chike, 50, gerente geral da GE Healthcare).


Nos anos recentes Chris se tornou particularmente adepto de jogos baseados em ritmos como “Dance Dance Revolution,” no qual jogadores pisam um tapete especial na hora certa de acordo com flechas na tela, e ele começou a postar vídeos dos movimentos de dança no You Tube. (A pedidos da mãe ele se filmou dos ombros para baixo.)


Ele também completou sem esforços os níveis mais difíceis do “Guitar Hero” original, lançado em 2005 para o PlayStation 2, e da seqüência de 2006, “Guitar Hero II.” Quando postou fotos das conquistas em sites como scorehero.com, ele notou que suas pontuações eram significativamente maiores do que os concorrentes mais próximos.


Sua ascensão incomum estava acontecendo em uma época que a indústria dos videogames estava descobrindo o potencial dos jogos sociais – que, como “Guitar Hero”, devem ser jogados em grupo e podem ser tão divertidos de se ver quanto participar – para atingir um público previamente adormecido.


 “É como karaokê, certo?” disse Kai Huang, presidente e co-fundador da RedOctane, a divisão da empresa de jogos Activision Publishing que lança “Guitar Hero.” “As pessoas não precisam ser o melhor cantor do mundo, mas simplesmente adoram subir no palco e cantar.”


Todo “Guitar Hero” precisa de um carrasco, e Chris encontrou o dele em uma música chamada “Through the Fire and Flames,” faixa que aparece no jogo “Guitar Hero III: Legends of Rock.” Executada pela banda britânica de power-metal Dragonforce, “Through the Fire and Flames” (ou somente “TTFaF” para os jogadores inveterados) é uma brutal viagem de força para mexer os dedos, consistindo em 3,722 notas em sete minutos e meio. A música está disponível apenas para os jogadores que completaram todas as demais no jogo, e não se espera que eles a dominem, e sim que consigam só sobreviver. “É o que consideraríamos o ápice da dificuldade,” disse Huang. “Os movimentos da guitarra ali são insanos.”


Em um período de semanas e meses Chris praticou a música no ambiente familiar, cercado por paredes decoradas com as camisas do oeste feitas em casa pela mãe, fotografias da família e uma foto dos avós maternos com o presidente Bush. Ele completou a música com 96 por cento de precisão, depois 98 por cento, mas continuava a cair perto da perfeição.


Então, tarde da noite em 3 de junho, com a câmera de vídeo de US$80 gravando-o para a posteridade, Chris tocou a canção sem erros. Com as mãos ainda tremendo, ele berrou uns palavrões e correu para subir a filmagem no You Tube, em que o mundo online já havia sido alertado sobre o seu feito quando a pontuação fabulosa foi automaticamente colocada no quadro de líderes da Xbox Live. Dentro de poucas horas, Chris estima, o vídeo da performance perfeita de “TTFaF” havia sido visto mais de 10,000 vezes; foi assistido desde então mais de 2.1 milhões de vezes – um recorde particularmente impressionante para o que é essencialmente um vídeo de alguém pressionando botões.


 Até aí a lenda de iamchris4life havia se espalhado. Em março ele foi convidado pelo Livro dos Recordes Guiness para visitar Nova Iorque e jogar “TTFaF” ao vivo, o que ele fez com precisão de 97 por cento. (“Fiquei meio desapontado por não poder ter feito meu melhor,” disse Chris.)


 Esse evento, por sua vez, chamou a atenção da Ant Commandos, desenvolvedores de hardware de videogames em Ontario, Calif., que firmou um acordo (negociado por Knowlton-Chike) para que Chris fosse sua figura pública. Ele agora empresta seu conhecimento nos jogos para desenvolver sessões para uma vindoura linha de controles “Guitar Hero”, e seu visual café com leite – ele é filho de mãe branca e pai negro – para propagandas e embalagens de produtos da Ant Commandos. “Internamente nós o chamamos de nosso Tiger Woods,” disse Raymond Yow, chefe de operações da empresa.


Outro nome freqüentemente evocado que tem a ver com Chris é Tony Hawk, o skatista pioneiro que potencializou suas habilidade em um império multimilionário de produtos licenciados, viagens de exibição e, sim, videogames, trazendo a outrora categoria desconhecida dos esportes de ação para os holofotes.


 O cenário dos videogames norte-americano está em sério atraso atrás de outras nações no que diz respeito a gerar e apreciar personalidades que seriam o equivalente no campo a Hawk. Na Coréia do Sul, por exemplo, os melhores jogadores de games de estratégia como StarCraft são tratados como estrelas do rock, com canais inteiros de televisão dedicados a cobrir os campeonatos e competições.


 Mas a cultura de games norte-americana pode estar se aproximando do próprio divisor de águas. “Precisamos daquele momento decisivo,” disse Michael Arzt, ex-executivo de marketing dos Gravity Games, um evento de esportes de ação, que agora é gerente geral da International Cyber Marketing, que comanda a competição internacional de jogos chamada World Cyber Games.


 Arzt disse que a jogatina norte-americana precisava de equivalentes ao giro de 900 graus de Tony Hawk nos X Games do verão de 1999, ou o black flip na motocicleta de Carey Hart nos Gravity Games de 2000, para se firmar como um esporte realmente mainstream. “Ainda não estamos lá, mas está começando a acontecer,” disse Arzt. “Os jogadores estão ficando um pouco mais espertos.”


Chris preferia morrer milhões de vezes a discutir, digamos, sobre os vários cursos avançados que fará no outono, ou sua nota no vestibular. Mas coloque uma guitarra falsa em suas mãos, e ele se torna uma pessoa dinâmica, diferente. Ao assistir às sessões de “Guitar Hero”, em vídeo ou ao vivo, dá para ficar facilmente hipnotizado pelos movimentos sincronizados dos dedos enquanto dançam pelo diminuto braço de plástico. Ele claramente não está fazendo música com o instrumento, mas a performance dele é um feito de coordenação à sua maneira.


 E ele está aprendendo a adicionar floreios ocasionais à atuação: realizar o extenuante solo da “Free Bird” de Lynyrd Skynyrd, enquanto olha para o teto, ou segurar o controle de guitarra nas costas, só para provar que a decorou. (“Algumas coisas nunca saem da cabeça,” explicou Chris.)


 Enquanto Knowlton-Chike atua como a agente e empresária de negócios do filho, ele disse que deixa a Chris decidir por si de quais eventos e oportunidades ele participará. “Ele faz boas escolhas,” ela disse. “Havia noites em que eu ia lá embaixo e falava, ‘Ei, desligue o jogo e vá pra cama.’ Mas ele sabe como se cuidar.”

Por exemplo, ela disse, Chris concordou em aparecer num evento de games em Amsterdã em outubro só depois de descobrir que não entraria em conflito com o calendário escolar. Ele também está seriamente tentado a comprar uma máquina de fliperama de “Dance Dance Revolution,” que custaria alguns milhares de dólares. “Estamos aprendendo a pagar as coisas quando tivermos o dinheiro,” afirmou Knowlton-Chike. Chris está esperançoso que sua linha licenciada de controles para “Guitar Hero” (programada para sair no fim do ano) venda bem. Mas está preocupado ainda em equilibrar os trabalhos no último ano da escola com o tempo que passa com os amigos, dizendo que eles talvez não estejam tão motivados academicamente. “Eles falam tipo, ‘É, o último ano é o mais fácil porque você pode relaxar.’” disse Chris. “Esse não pode ser o meu caso.”


Tendo mostrado sua destreza em “Guitar Hero,” Chris trocou para outro jogo musical chamado “Rock Band,” que permite aos jogadores tocar bateria além da guitarra. Ele se sentou diante de um pequeno kit de bateria de plástico e principiou a tocar bem alto uma recriação imaculada da percussão de Keith Moon de “Won’t Get Fooled Again,” do The Who, improvisando alguns enfeites nos solos.


Apesar da amostra que havia acabado de dar, Chris disse que não seria um bom músico. “Acho que provavelmente podia se tentasse,” ele disse. “Mas não sou o tipo de cara que gosta de punk. Não sou baterista. Só jogo videogames.”

 




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