"Mega Man 9" dita nova tendência para a mania dos games retrô

Divulgação

Bruno "Bagaço" Vasone
03.10.2008

Games retrô são a nova mania do mercado. Seja pela criatividade escassa nos dias atuais ou pela pura genialidade dos clássicos do passado, o fato é que cada vez mais estamos sendo soterrados por uma avalanche de remakes e relançamentos de títulos que fizeram sucesso no passado. O advento da nova geração trouxe com ela ferramentas online onde é possível comercializar tais títulos a preços justos, impulsionando esse mercado.

Acordo OrtográficoCom um Nintendo Wii conectado à internet é possível baixar centenas de clássicos em seu formato original, das primeiras plataformas da Nintendo (NES, SuperNintendo, Nintendo 64) até as da Sega (Mega-Drive, MasterSystem). Emquanto isso, a Live do Xbox 360 e a PSN do PlayStation 3 estão recheadas de versões modernizadas de títulos antigos, como “1942” ou “Bionic Commando Rearmed”.

Até os portáteis estão sendo invadidos por essa onda. Por exemplo, com as remasterizações de jogos da série “Final Fantasy” ou “Dragon Quest” pela Square Enix. A empresa inclusive desenvolveu uma versão moderna do jurássico “Space Invaders” para o PSP que beira o brilhantismo. Mas se esse estilo retrô de games faz tanto sucesso, porque não desenvolver um título original com esse conceito em mente desde o início?

Pois não é que, em uma sacada brilhante, a Capcom decidiu atender ao apelo dos fãs e voltar às origens com “Mega Man 9”. Para o novo jogo do robô de pijama azul, a empresa descartou todas as instaurações modernas e bizarras da franquia (“Mega Man X”, “Legends”, “Zero”, “Battle Network”) e inspirou-se no passado remoto do personagem, também o período mais icônico de sua carreira – “Mega Man” 1 a 6 para o Nintendinho, mas principalmente os três primeiros.

Em “Mega Man 9” temos não só renascimento de uma franquia, mas em seu formato puro e original. Trilha sonora soberba, gráficos 8-bits, design de fases genial, jogabilidade simples mas precisa, e inclusive a dificuldade brutal dos primórdios da série, estão de volta em um jogo completamente novo.

Todos os elementos que fizeram da tríade “Mega Man” 1, 2 e 3 verdadeiros clássicos a estão presentes na nova aventura do herói. Tantos personagens memoráveis na história dos games estrelaram fracassos épicos em tentativas de modernização que é de se indagar porque demorou tanto pra alguém ter a coragem de retomar as mecânicas que fizeram de um título um clássico em primeiro lugar.

O porco-espinho “Sonic”, por exemplo, vêm estrelando fracasso após fracasso nos últimos anos. Após cada uma dessas novas desventuras, a Sega se desculpa e promete “voltar às origens”. Pois então, não seria hora de seguir o exemplo de “Mega Man”? Que melhor maneira de fazê-lo se não desenvolvendo um “Sonic 4”, que retomasse a série logo após o terceiro jogo para Mega-Drive – considerado por muitos como um dos melhores da plataforma – todo em 2D, no formato 16-bits, e com os elementos que fizeram da série espetacular em primeiro lugar.

E o momento é agora, ainda mais com a Capcom mostrando como é simples fazê-lo com “Mega Man 9”. O retorno à estética 8-bits em um jogo completamente novo, por si só, já faz desse um dos jogos mais importantes do ano. Certo que tem potencial para inspirar toda uma nova leva de retomadas de franquias que encontraram apenas desgraça em modernizações.

Tal jogo não seria possível sem, antes de qualquer coisa, preconizar o retorno à estética 8-bits. Mais do que baratear a produção, a escolha pelo estilo retrô 8-bits é uma decisão artística. Da mesma maneira que filmes em preto e branco e stop-motion estão, respectivamente, para o cinema e a animação, o uso de uma estética antiquada em um videogame acaba conferindo ao mesmo um charme único e inegável.

Grande parte do glamour de “Mega Man 9”, inclusive, deve-se ao fato de remeter fielmente à um estilo de jogo que marcou uma geração. Até mesmo os defeitos que há muito foram superados tecnologicamente foram replicados, como aqueles sprites bugados que ficam piscando quando há muitos inimigos na tela – e que podem levá-lo à morte em situações de aperto. É uma verdadeira reconstrução da experiência de jogar games há quase 20 anos atrás.

Aliás, uma das características principais dos jogos antigos que fica bem clara em “Mega Man 9” é a dificuldade brutal. Prepare-se para morrer. E muito. É inevitável sentir-se enferrujado após os primeiros 15 minutos de jogo, e não dá pra negar que essa é uma das principais diversões do título. Mas diferente da maioria dos games modernos, cuja alta dificuldade, quando presente, pode ser creditada a más decisões de design, aqui ela se situa em um fino limiar entre o difícil e o injusto.

Tudo bem, o título possui aquele tom sádico característico da geração 8 -its – sempre que você morre deve recomeçar do início e as vidas são limitadas – mas não é possível em momento algum culpar o game. Os controles simples e funcionais do game são baseados nos reflexos e destreza do jogador, e isso por si só já é extremamente recompensador ao completar uma fase. Depois de morrer pela trigésima vez em uma fase (afinal, que raios aqueles elefantes estão fazendo na fase do Concrete Man), completá-la finalmente traz um sentimento de superação pessoal que raramente pode ser sentida nos games modernos.

E quando você morre em “Mega Man 9” – o que acontece com extrema freqüência – é porque VOCÊ fez alguma besteira, o que não deixa de ser engraçado. Mas se humor não for seu forte, ao menos a sua TV ficará agradecida, pois não é ela que vai receber um joystick voador, e sim sua própria testa.
 
A trilha sonora é outro espetáculo à parte, principalmente nas últimas fases – a música tema de Galaxy Man inclusive poderia muito bem animar uma pista de dança eletrônica. Algumas delas estão entre as melhores que a série já viu, o que só reforça o grau de comprometimento que a Capcom teve ao assumir essa proposta de revitalização da série clássica. A história também é ótima, e o título como um todo, mesmo tão enraizado em uma temática “ultrapassada”, transborda criatividade e originalidade.

“Mega Man 9” chega em muito boa hora para nos lembrar dos primórdios dos games, no final da década de 80, quando bits jurássicos ainda caminhavam pelas nossas salas. É uma celebração a uma era em que jogos eram brutalmente difíceis, mas recompensadores. Quando completar o jogo mais recente era uma tarefa hercúlea que poderia levar semanas, senão meses, de completa obsessão, mas que quando conquistados eram motivo de um orgulho indescritível.

E acima de tudo quando games possuíam certa inocência e ingenuidade que foi perdida em algum momento de sua história. Exacerbar criatividade para ultrapassar barreiras tecnológicas era status quo na época, e mesmo com tais limitações esses desenvolvedores foram capazes de produzir obras-primas que transgrediram as barreiras do tempo.

No melhor dos mundos, esse tiro no escuro da Capcom irá gerar uma nova tendência de retomada de um estilo retrô de se jogar games. Afinal, por mais que realismo gráfico absoluto e física beirando a perfeição sejam importantes, não são sinônimo de um grande jogo. E “Mega Man 9” está aí pra provar isso.

Leia mais sobre: Mega Man 9



ÚLTIMOS REVIEWS

Ver todas »