"Star Wars: The Force Unleashed"

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Bruno "Bagaço" Vasone
24.10.2008

Desde o anúncio de “Star Wars: The Force Unleashed”, encarei o jogo com certo ceticismo. Não apenas pelo histórico rico e conturbado das adaptações para games da franquia, que se equilibra em uma corda bamba entre obras primas e fracassos absolutos, mas também pela noção de que ambientar uma história entre ambas as trilogias cinematográficas poderia ser um tanto arriscado.

O vídeo de lançamento já denunciava tal risco, ao mostrar um Jedi até agora desconhecido utilizando a força para derrubar um Star Destroyer (aquele cruzador imperial eternizado na cena de abertura do primeiro filme da trilogia), como quem pega uma mosca com pauzinhos japoneses. Agora, porque a existência de um sujeito tão poderoso, capaz de ofuscar mestres como Yoda ou Palpatine e deixar os “escolhidos” Anakin e Luke Skywalker no jardim de infância do uso da força, passou despercebida por todo esse tempo?

Com o jogo finalmente em mãos, dá pra comprovar que ostentar um nível de poder tão grandioso é realmente tentador, mas essa mecânica acaba se tornando aqui em um sabre de dois gumes. Por mais que seja divertido fritar inimigos sem interrupção ou arremessá-los como sacos de batata em abismos siderais, tamanho controle da força acaba tornando o herói praticamente em um semideus, e o design das fases oferece pouco desafio. Os poucos puzzles (se é que podem ser chamados assim) presentes são pateticamente óbvios, e a dificuldade reside apenas na força bruta – o que seu personagem tem de sobra.

Já o conceito de controlar um Jedi/Sith, que é praticamente uma entidade divina, seria melhor digerida se a história transcorresse na antiguidade do universo ficcional de “Star Wars” (como em “Knights of the Old Republic (KotOR)”) ou em um futuro remoto (como em “Jedi Knight”). Aqui, entrelaçada às trilogias cinematográficas, a noção beira o absurdo, e vai deixar muito fanboy maluco tentando ligar os pontos.

Eu sou seu pai... adotivo

Em “The Force Unleashed”, o jogador é introduzido a Lorekiller... digo, Starkiller, rebento de um Jedi assassinado por Darth Vader, que é então adotado pelo churrasquinho ambulante dos Sith – o mesmo que promoveu uma verdadeira chacina de pimpolhos Jedis apenas alguns anos antes. Starkiller torna-se então o aprendiz “secreto” de Vader, e a trama segue de maneira satisfatória com a presença de inúmeros personagens de ambas as trilogias, como o ex-senador Bail Organa, uma versão ‘teenager’ da princesa Leia e até mesmo Darth Maul, em uma manifestação post-mortem (não pergunte).

Tendo sido oficializada por George Lucas como parte integrante do universo oficial dos filmes, a história apresenta momentos relevância para os fãs da série, como, por exemplo, o exato momento da formação da aliança rebelde. Mas esses momentos são atrapalhados pelo constante ping-pong moral de Starkiller entre os dois lados da força. O alinhamento do herói muda desgovernadamente a cada nova fase, sendo que nunca fica claro por qual lado você está realmente lutando.

Pra piorar, ao invés de manter foco na obsessão típica que um indivíduo possa encontrar quando em posse de poder tão colossal, a dualidade moral de Starkiller na trama trafega por momentos de ursinho carinhoso e rebeldia sem causa. Nada do que você faça é refletido nessa ambiguidade, tampouco são oferecidas escolhas ao jogador.

Minto, há um momento no final do jogo onde no qual são apresentadas duas opções ao jogador. Mas seus resultados representam muito pouco na resolução jogo, além de ter uma conotação altamente moralista – para não estragar surpresas, citarei apenas a máxima “o bem sempre prevalece”. Talvez eu tenha sido mal acostumado por “KotOR” e suas inúmeras escolhas morais, tanto narrativas como de jogabilidade, que acabam inclusive afetando o andamento da trama, mas o fato é que fiquei extremamente frustrado com o minúsculo e raso aperitivo desse tipo de escolha apresentado aqui.

A Força está nos gráficos

Apesar de todas as falhas de enredo, no aspecto técnico “The Force Unleashed” é primoroso. A qualidade dos gráficos é embasbacante, com cutscenes pré-renderizadas belíssimas, que podem ser assistidas livremente uma vez desbloqueadas na história principal. A direção artística é fruto de inspiração brilhante, inclusive as novas raças e personagens que são introduzidos no jogo. Em particular os chefes de fase que, mesmo com lutas previsíveis e mal idealizadas, são belas adições ao universo da franquia.

O áudio também não fica atrás, digno das trilogias cinematográficas, como é de se esperar em uma produção da LucasArts. Efeitos e trilha sonora épicos, somados a uma dublagem exímia, produzem o clima perfeito para qualquer fã imergir na história, compensando até certo ponto a fragilidade do roteiro.

A jogabilidade segue a fórmula de jogos de ação como “Devil May Cry”, com dezenas de combos e variações disponíveis para sobrepor seus pobres adversários. Cada inimigo derrubado representa pontos de experiência necessários para subir de nível, o que libera pontos para customizar seus poderes da força, características básicas como regeneração ou vida total e desbloqueio de novos combos.

Itens especiais chamados de Holocrons, escondidos pelas fases do jogo, podem fornecer desde experiência extra até customizações de sabres de luz e vestimentas. Também oferecem motivo para voltar às fases após terminá-las, a fim de encontrar todos, apesar de que não há muita razão para jogar novamente o título uma vez terminado. Um modo multiplayer seria suficiente para justificar tal caçada por customização, mas ele é inexistente.

Não dá pra negar que “Star Wars: The Force Unleashed” é um belo jogo. Se não fosse pela falta de personalidade do herói principal, ou paradoxo que sua presença representa quando idealizada como parte da saga cinematográfica, certamente seria digno de figurar entre as obras primas de adaptações da franquia.

Mesmo assim o jogo é uma boa pedida se você procura por uma diversão descompromissada. Senão pela trama, pelo menos pela possibilidade de brincar de super Jedi, cortando Walkers como se fossem bolos de aniversário ou assistindo stormtroopers degladiando para se soltar quando suspensos pela força. Já os fãs da série, que provavelmente já terminaram o jogo no dia de lançamento, uma nova esperança figura no horizonte: O MMORPG baseado em “Knights of the Old Republic” - o batizado “Star Wars: The Old Republic”, recentemente anunciado pela BioWare. Nele sim será possível buscar o poder absoluto, sem aquele Ewok atrás da sua orelha te pentelhando a cada segundo sobre prováveis paradoxos.

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