O visual é tosco, mas as possibilidades são praticamente intermináveis

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New York Times - Seth Schiesel
03.11.2008

Então você quer ser um designer de jogos.

Você é esperto. Você pode entreter milhões de pessoas por bilhões de horas. Aqui está a prova: encontre um PlayStation 3, compre “LittleBigPlanet” e construa uma fase linda com as prodigiosas ferramentas de edição do jogo.

“LittleBigPlanet” é o título que o PlayStation 3 tem esperado por dois anos. Na superfície é o mais básico dos gêneros de jogos: o de plataforma. Você pula. Você se esquiva. Você evita poços de fogo e pega itens brilhantes para ganhar pontos. A nuance é a combinação desses elementos, assim como a nuance do beisebol está na combinação de tempo, velocidade, coordenação e pensamento. Mas o que fez “LBP” especial é que ele dá aos jogadores a habilidade e os mecanismos para criar o próprio playground virtual, além de navegar pelas terras maravilhosas desenvolvidas pelos profissionais.

Quando comprei um PS3 em 2006, escrevi publicamente para o presidente da Sony: “Howard Stringer, você tem um problema. O novo videogame da sua empresa não é tão bom assim.” Finalmente o PS3 tem, se não um salvador, pelo menos um campeão. Ele tem costuras pelo corpo, uma expressão texturizada e é o personagem que mais dá vontade de abraçar nos últimos anos.

Tudo bem, o nome dele é Sackboy. Não precisa ficar assim. Chame-o do que quiser. Sem problemas. “LittleBigPlanet” é uma joia sedutora de entretenimento em alta definição, e uma das melhores indicações sobre aonde a mídia de massa está indo.

Isso porque aqui há mais um sistema do que um produto. A maioria dos entretenimentos tradicionais se relacionam a oferecer um objeto – um livro, um roteiro, um show, uma pontuação, uma performance – que é então preservado, passado adiante e reinterpretado. Não há nada de errado com isso. Mas o novo entretenimento – redes sociais, jogos, comunidades online – tem a ver com dar forças às pessoas do cotidiano para se expressar e interagir sem um árbitro central. A verdade é que o entretenimento interativo é muito mais difícil de se criar do que de experimentar. Um grande jogo como xadrez, pôquer ou “Tetris” deve ser fácil de jogar no começo e depois revelar níveis mais profundos de complexidade e habilidade.

“LBP” ganha visualmente, não porque ele é espetacular, mas porque é tosco. A bizarrice é que você é um saco de feijão de três polegadas que corre por botas e pernas de mesas, e animais de estimação ameaçadores e enormes. E ele funciona porque você consegue ver todas as costuras individuais e riscos no lado daquele tênis que está no chão. Dá para ver as linhas soltas que deixam suspensa a xícara quebrada prestes a cair sobre sua cabeça.

No modo basic story, o jogo não deve demorar mais do que 8 ou 10 horas, dependendo da sua destreza. Mas o elemento sujo e maravilhoso é que os cenários oferecidos por outros jogadores são muito mais divertidos do que os estágios polidos pela Media Molecule, o desenvolvedor do jogo.

Isso se estende à música do jogo, que é surpreendentemente fluente e sofisticada. A Sony é uma corporação global, mas fiquei impressionado mesmo assim, enquanto viajava no jogo de continente a continente, e ouvia a música evoluindo dentro de um repertório bem universal.

Muito universal, talvez. Depois de terminar o jogo pela primeira vez, descobri que o lançamento havia sido atrasado em uma semana para que se livrassem de uma música que incluía letras do Alcorão. Obviamente a Sony não quer ser o próximo cartunista dinamarquês nem o cineasta holandês, importunada ou até morta por extremistas.

Mas isso faz você pensar o quanto uma minoria deve se tornar violenta antes que as corporações multinacionais parem de abrir caminho para ridicularizá-las e conseguir risadas baratas. Afinal, em “LBP” a Sony não teve problemas em colocar um grande negro com lábios grossos no lugar do famoso macaco em uma fase que parece um tributo ao clássico de fliperama “Donkey Kong”.

Porém, nós vivemos com essas coisas no reino da mídia popular. Eles só estão sendo irônicos, certo?

Francamente, a princípio me senti meio culpado por pensar que as ferramentas de edição de fases de “LittleBigPlanet” eram mais legais que o jogo em si. Mas então percebi que exercer força para fazer e compartilhar visões diversas – um castelo assombrado, uma corrida de foguetes, uma jornada pelo corpo humano – é tão mais interessante do que comemorar uma criação particular.

Claro, assim como toda ferramenta, mesmo uma simples como o lápis, o mero fato de que alguém pode usá-la não faz da pessoa um gênio. Levam-se horas de esforço e pensamento profundo para construir alguma coisa que os outros achem divertido. Montar uma fase em “LBP” significa gastar uma tarde inteira ou um fim de semana olhando para a televisão, arrastando e soltando blocos prosaicos de construção de um jogo: rampas, saltos, obstáculos.

Depois você pode dividir a sua cria por meio da conexão de internet do PS3. A Sony deixou fácil e intuitivo na tela o modo para encontrar o que as pessoas fizeram, seja isso uma recriação embelezada de “Super Mario Bros.” ou uma aventura através da gaveta de meias de alguém.

Nenhuma das grandes empresas que faz consoles – Sony, Microsoft ou Nintendo – ficou conhecida por abraçar conteúdo criado pelo usuário. Em vez disso, todas as três têm sido muito controladoras e paranoicas. Não é um choque pequeno que a Sony tenha aberto as avenidas da criatividade. Não hesitei em anunciar os vacilos da Sony. Sr. Howard, desta vez o seu pessoal acertou.

Leia mais sobre LittleBigPlanet.

 



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