Nervoso com Washington? E se não existisse mais?

New York Times - Seth Schiesel
12.11.2008
Neste momento profundo da história de nossa nação, passei quase 50 horas recentemente ciscando entre os escombros de um de seus potenciais futuros.
Chame isso de recusa subconsciente, porém teimosa, para reconhecer o óbvio, mas levou até o dia seguinte às eleições para fazer a relação entre as duas jornadas que me cativaram nas últimas semanas: o caminho para a Casa Branca e minhas aventuras do século 23 nas ruínas pós-apocalípticas de Washington, D.C., em “Fallout 3”.
Quando me arrisquei pela primeira vez para fora do frio túnel do metrô para o avariado National Mall – com trincheiras barulhentas e arame debaixo da sombra do Washington Monument em frangalhos – não estava pensando em política. Quando me esgueirei pelas ruínas do Capitólio e assisti a um bando de mercenários lançar uma mini-ogiva nuclear em uma besta mutante de 9 metros sob a cúpula da Rotunda, eu não estava pensando em maiorias à prova de políticos lerdos.

Não foi até que eu finalmente abrisse caminho pela avenida Pennsylvania – despachando mutantes com o meu rifle de plasma a cada esquina para descobrir uma cratera radioativa no chão atrás de uma cerca de ferro torcida, dobrada, mas familiar – é que vi “Fallout 3” em um contexto do mundo real. Nesta visão à custa do orgulho, a Casa Branca não está falida ou queimada. Não é a casa de uma mente maligna. Ela apenas sumiu.
É preciso muita determinação para explodir toda a área de Washington; encarar a destruição com ataques detalhados, porém quase pintados; levar a população a terra perdida com todo o tipo de personagens alternativamente doidos, amáveis e assustadores; relacionar uma partitura de tramas que se intercalam; regar-se com uma grossa camada de artilharia pesada; e simplesmente deixar o jogador solto. E, no entanto, é isso que a Bethesda Softworks consegue com “Fallout 3”, um dos RPGs single player mais ambiciosos dos últimos anos.
“Fallout 3” pode ser quase intimidante, não em sua dificuldade (é quase fácil demais), mas em seu alcance. No começo eu basicamente liguei a seta e ignorei tudo que não estava diretamente relacionado à história principal. No game, o jogador começa como um bebê, e então se torna um jovem adulto que cresceu em uma câmara subterrânea fechada com outros sobreviventes do holocausto atômico. Você adentra a terra perdida em busca do seu pai, que desapareceu misteriosamente.
O núcleo da trama principal me tomou cerca de 25 horas para completar, e passei mais 20 horas explorando, mas mantenha-se ciente de que eu ainda vi menos do que a metade do que “Fallout 3” tem a revelar. (Como um crítico, isso é frustrante pessoal e profissionalmente, mas inevitável devido ao tempo disponível.) Em termos de puro volume de conteúdo, a Beltway de “Fallout 3” provavelmente é mais grandiosa que a versão de Nova Iorque de “Grand Theft Auto IV”. Chamá-la de vasta não seria suficiente.
E isso pode levar a algum desconforto – com o ritmo do jogo. “Fallout 3” não nos pega e nos coloca em momento atrás de momento de excitação tensa. Há muitos desses momentos no estoque, mas o jogador deve ser de alguma forma centrado e motivado a buscá-los. Alguns jogadores vão gostar do senso de exploração, mas como uma experiência dramática é quase maçante.
E aqui as raízes da Bethesda se mostram um pouco. Os reverenciados dois primeiros jogos “Fallout” foram feitos por uma empresa diferente, a Interplay. A Bethesda, talvez a única grande desenvolvedora norte-americana focada em RPGs single player (em oposição aos jogos online), é conhecida pela série de jogos de fantasia “Elder Scrolls”. Sou fã de longa data dos jogos “Elder Scrolls”, e curti “Fallout 3”, mas muito dos trabalhos anteriores da Bethesda foi colocado neste último projeto.
O que quero dizer é o seguinte. O melhor de um jogo single player é que todo um mundo virtual pode ser feito para viver ao seu redor, o jogador. Em um jogo single player, você pode se tornar o rei ou o imperador galáctico ou o líder incontestável da metrópole ou qualquer outra figura suprema que se encaixar, pois não há outros jogadores para o designer equilibrar o jogo. Por contraste, em um jogo multiplayer não dá para ter milhares de reis por aí; dentro da ficção os jogadores precisam estar em um nível menos exaltado. (Em “Lord of the Rings Online” não dá para jogar com o Gandalf; em vez disso você é um dos muitos aventureiros que realizam missões para Gandalf.)

Então, o que os jogos single player oferecem é a oportunidade de o jogador se tornar todo-poderoso. E a Bethesda tradicionalmente permite essa oportunidade. Nos jogos “Elder Scrolls” tem sido muito fácil se tornar praticamente invencível. Isso é divertido por um tempo, mas sem desafio a narrativa vem a perder o significado.
“Fallout 3” não cai totalmente nessa armadilha, mas fica com um calcanhar preso. Depois de umas duas dezenas de horas, seu personagem é tão poderoso que o combate pára de fornecer desafio significativo, e o jogo basicamente se torna uma viagem de observação para descobrir a próxima construção bombardeada, labirintos subterrâneos ou pontos turísticos.

E neste nível “Fallout 3” vai bem. Gostei de encontrar uma sala nos fundos nos escombros do Capitólio com garrafas de whiskey e copos quebrados. Gostei de procurar um púlpito e um livro chamado “Mentir, o Estilo do Congresso”.
Chame isso de piada barata, mas até no futuro ela ainda funciona.
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