Review: "Caça-Fantasmas"

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16.06.2009

Dan Aykroyd está em um de seus lugares favoritos: cercado por fantasmas, ou pelo menos histórias de fantasmas.

A passos de distância do Central Park na sede Beaux-Arts da Sociedade Americana de Pesquisa Psíquica, em uma biblioteca alinhada com livros como “Gods From Outer Space” e “Wall Street and Witchcraft”, Aykroyd está apresentando a autenticidade sobrenatural da família com a mesma carga inteligente, porém vagamente irônica, que sustentou durante toda a carreira na comédia. Impassível, ele o desafia a levá-lo a sério mesmo quando parece caçoar da própria torrente de bizarrices.

“Meu bisavô, Sam Aykroyd, era dentista, e ele era basicamente o crítico local, o resenhista local de qualquer sessão psíquica que passava por sua cidade natal em Kingston, Ontario, nos anos 1920”, afirmou. Referindo-se às mulheres que ajudaram a construir o movimento espiritualista no meio do século 19, acrescentou: “As pessoas que vinham a sua cidade eram como as irmãs Fox de Rochester, N.Y., que se comunicavam com o Sr. Splitfoot, o fantasma de uma pessoa que foi assassinada e enterrada no porão de casa. E não apenas se comunicavam com o Sr. Splitfoot na casa, mas o levavam em uma turnê ao redor do mundo com elas. Então era quase como se estivessem viajando com o fantasma que as fez famosas”.

Continuando o tour pelo escritório da família de Aykroyd de curiosidades de outro mundo, ele disse, instintivamente: “Minha mãe alega que quando estava cuidando de mim, um homem e uma mulher apareceram ao pé da cama, então ela chamou meu pai, e eles abriram o álbum da família, e vieram Sam e minha bisavó Ellen Jane para dar as boas-vindas ao novo bebê”.

Ele esperou o momento certo para a melancolia perfeita: “Claro, minha mãe vem do lado cético franco-canadense da família”. Quem mais poderia ter inventado os "Caça-Fantasmas", um esquadrão interdimensional de homens de Orkin? Quem mais poderia ter criado uma ameaça suprema à humanidade na forma do colossal homem marshmallow?

Agora os "Caça-Fantasmas" estão mirando as armas de próton para uma nova geração por meio da mídia ascendente que estava apenas na infância quando o Ectomóvel deu as caras pela primeira vez: os videogames. Esperando quebrar a reza indolente de longas décadas de produtos associados ao filme, a Atari, produtora do jogo, abordou “Ghostbusters: the Video Game" como uma produção importante em seu próprio direito. Em uma reversão da cadeia alimentar tradicional do entretenimento, o jogo, lançado nesta semana, chega ao mercado como um planejamento pelo aguardado terceiro filme dos "Caça-Fantasmas", que ainda está nos estágios iniciais. A expectativa é que o jogo vai revitalizar e expandir o interesse pela franquia antes do novo filme.

Bill Murray, Harold Ramis e Ernie Hudson – os outros três caçadores originais – emprestaram seus rostos e vozes para o novo jogo, assim como Annie Potts, como a secretária Janine, e William Atherton, como o detestável Walter Peck (Signourney Weaver, também conhecida como Guardião do Portal, e Rick Moranis, conhecido como Guardião da Chave, não participaram). Mas é Aykroyd, 56, que permanece mais dentro do universo "Caça-Fantasmas". Afinal, ele o inventou.

Depois de se apresentar com a renomada trupe Second City em Toronto, Aykroyd ganhou notoriedade em 1975 no “Saturday Night Life” como um dos Not Ready fot Time Players originais. No meio dos anos 1980, seus papéis em “The Blues Brothers” (1980) e “Trading Places” (1983) o haviam estabelecido como uma das estrelas de comédia mais bancáveis de Hollywood. No entanto, em toda a sua obra a franquia “Ghostbusters” – o original de 1984 e a sequência, “Ghostbusters II”, cinco anos depois – é sua criação mais querida, produto de uma imaginação que combinou sacadas cômicas amargas e entusiasmo verdadeiro pelo oculto.

“Quando falávamos sobre os três Caça-Fantasmas dizíamos que Danny era o coração, Harold o cérebro e Murray, claro, a boca”, afirmou Ivan Reitman, diretor de ambos os filmes, por telefone. “E na vida real eu caracterizaria da mesma forma. Do ponto de vista da criação, Aykroyd tem uma mente extraordinariamente fértil. Costumávamos dizer que ele captava sinais secretos de uma estação no espaço. Ele desenvolve grupos de personagens originais que são uma mistura de algo nos limites externos que é humanizada em uma maneira americana bem americana”.

Bem, não exatamente americana. Crescendo em Ontario, Aykroyd foi cativado pelos contos clássicos do além – como “Ghost Breakers” (1940) de Bob Hope, “Hold That Ghost” (1941) de Abbott e Costello e “Ghost Chasers” (1951) dos Bowety Boys – que ele assistia nos fins de semana no YMCA.

“Então aqui estou eu quando criança assistindo a vários filmes e adorando, crescendo em uma casa onde assombrações e sessões espíritas eram partes aceitadas de crença familiar, e jornais da Sociedade Americana de Pesquisa Psíquica espalhados pela casa”, Aykroyd recontou (por isso a escolha da biblioteca da sociedade para uma entrevista recente). Anos mais tarde, depois de fazer “The Blues Brothers”, ele se deparou com um artigo em uma das publicações da sociedade que buscava explicar a física quântica por trás de como as aparições poderiam se manifestar no mundo real.

“Então me sentei e pensei, por que não usar o vernáculo da parapsicologia como ele é praticado por aqueles que estão fazendo isso diariamente e uni-lo ao velho conceito de comédia dos anos 30 e 40?”, disse.

Aykroyd escreveu o roteiro original com a ideia de participar do filme, ele, Eddie Murphy e John Belushi, amigo próximo e parceiro criativo, como os "Caça-Fantasms" originais. Ele disse que estava no escritório de produção de Belushi, na Quinta Avenida, 150 (chamado, apropriadamente, Phantom Enterprises), no dia 5 de março de 1982, escrevendo uma fala para o personagem de Belushi quando recebeu uma ligação informando sobre a morte de Belushi em Los Angeles.

Murray acabou pegando o papel de Belushi como o afetuosamente lascivo Dr. Peter Venkman. (Murphy estava concentrado em “Beverly Hills Cop.”) Apesar de Aykroyd ter creditado Murray como o grande responsável pelo sucesso do filme, “Ghostbusters” alçou todas as estrelas do filme a um novo patamar de fama.

“Tínhamos confiança total naquele momento”, disse Ramis, uma das estrelas do filme e co-escritor do roteiro final. “Estávamos no auge da forma. Lembro-me de Dan durante ‘The Blues Brothers’ ficando triste por fazer tanta propaganda. Ele dizia: ‘Não quero estar em todas as lancheiras dos Estados Unidos’. Bom, quando chegou a hora de ‘Ghostbusters’ a música tinha mudado, e ele falou: ‘Agora eu quero estar em todas as lancheiras dos Estados Unidos’. E estávamos. E ganhamos nossos próprios bonecos e assim por diante. Havíamos feito uma pequena marca na cultura pop com alguns filmes anteriores, então sentimos que tínhamos chegado, e então ‘Ghostbusters’ meio que nos colocou no topo”.

O segundo filme garantiu lucros sólidos, mas era uma mera sombra do original. Como Aykroyd coloca, “Era um bom companheiro – não um justo, um muito bom, mas um bom companheiro para o primeiro filme”.

Aykroyd estava imediatamente ansioso para começar um terceiro filme, mas seus primeiros três rascunhos de roteiro não conseguiram animar Reitman e Ramis, sem falar do esquivo Murray. Desse ponto a série basicamente mofou por 15 anos. (Apesar de sempre se sair bem em vendas de vídeos caseiros.)

Mas não obstante a ausência de novos filmes, a franquia “Ghostbusters” continuou a estar na imaginação dos fãs, particularmente entre jovens rapazes. Entre os entusiastas havia executivos de uma agora falida produtora de jogos chamada Sierra Entertainment.

Alguns anos atrás executivos da Sierra convenceram a Sony Pictures, que detém a licença “Ghostbusters”, que a desenvolvedora Terminal Reality, baseada perto de Dallas, tinha o conhecimento técnico e criativo para fazer um novo jogo de ponta dos Caça-Fantasmas que se garantiria no competitivo mercado de jogos, mesmo sem um filme inédito para ajudá-lo. O jogo terminou com a Atari depois de várias maquinações corporativas.

Aykroyd não é um jogador, mas ele ficou pelo menos tão impressionado com a pegada da Terminal Reality com o dialeto e estilo dos "Caça-Fantasmas" quanto com a proeza deles nos efeitos especiais.

(Houve outros jogos “Ghostbusters”, mas nenhum desde o começo dos anos 1990.)

“No começo eles vieram até mim, e eu disse, ‘Eu os encorajo, vão em frente’”, contou. “Deram-me o roteiro. Eu o peguei. Reescrevi fazendo pequenas coisas estruturais, principalmente trazendo de volta o tom dos diálogos originais e o vernáculo – os termos, o idioma – mas eles fizeram um bom trabalho. Dois terços estavam lá. Depois eles o deram para Harold. Ele fez a mesma coisa”.

O jogo está sendo apregoado pela Atari como tendo sido escrito por Aykroyd e Ramis, mas ambos, além dos escritores reais da Terminal Reality reconhecem prontamente que isso é principalmente marketing. “Eles ficaram felizes por contar com nosso envolvimento”, disse Ramis. “A forma mais pura que posso dizer é que eles não poderiam ter-nos pago o bastante para dar tempo e atenção requeridos para torná-lo tão engraçado quanto o filme”.

Entretanto, o jogo é bem engraçado, e a qualidade e expressão das vozes estão bem além de praticamente todos os jogos que não “Grand Theft Auto IV”.

Enquanto isso os roteiristas Lee Eisenberg e Gene Stupnitsky, de “The Office”, estão trabalhando em um roteiro em potencial para o terceiro filme “Ghostbusters”. Aykroyd e Reitman disseram que a história básica gira em torno de o "Caça-Fantasmas" original passar a vez de erradicação e aparições para uma nova geração.

Quanto a Aykroyd, ele tem se mantido ocupado hoje em dia fazendo consultoria para a cadeia de clubes de música House of Blues, a qual ela ajudou a fundar e que foi vendida depois para a Live Nation; ajudando a gerenciar e promover várias empresas de licor (incluindo a Crystal Head Vodka e importando a tequila Patron para o Canadá); e se apresentando com Jim Belushi como os Blues Brothers em qualquer lugar entre 150,000 e 1 milhão de dólares.

(“Somos comparáveis a Jimmy Buffett e Paul Simon” em custo, ele disse.)

Sua carreira nos filmes se resume a personagens agora – disse que gosta de vilões – e parece contente com isso.

“Nunca funcionou para mim como protagonista”, afirmou. “Não era um protagonista. Não era americano. Você sabe que sou canadense. Sou um pouco estrangeiro, e isso atrapalha. É uma sensibilidade que atores americanos têm que toca o próprio povo. Nunca tive isso com o povo americano. Eu os toco de outra forma – com a escrita, com a música”.

Ele é com certeza não-americano em sua humildade.

“Devo todo meu sucesso aos colaboradores com os quais tive sorte de estar envolvido”, disse. “Em todos os filmes nos quais estive envolvido tive diretores mais espertos que eu, roteiristas que eram mais espertos, atores que eram mais espertos. E eles me fizeram bem, e minhas habilidades e técnicas os apoiaram. Acredito que minha carreira se beneficiou com a associação entre os melhores da indústria”.

E até com alguns fantasmas.

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