Crítica: "Batman: Arkham Asylum"

New York Times - Seth Schiesel
11.09.2009
Quem não gosta de uma surpresa agradável?
Ao jogar o novo game "Batman: Arkham Asylum", não consegui parar de pensar no prefácio de Walker Percy em “A Confederacy of Dunces”, a obra-prima de John Kennedy Toole publicada postumamente.
Recontando sua profunda relutância em ler uma cópia de carbono quase ilegível de um escritor morto e desconhecido, Percy escreve: “Neste caso eu sigo lendo. E sigo. Primeiro com o sentimento afundado que não era ruim o suficiente para parar, depois com interesse formigando, e então uma excitação crescente e finalmente uma incredulidade: certamente não era possível ter sido tão bom. Devo resistir à tentação de dizer o que me fez primeiro ficar boquiaberto, rir, gargalhar, balançar a cabeça em estupefação. É melhor deixar o leitor fazer a descoberta por si”.
É exatamente assim que um jogo de alguma forma esgotado passou a impressão ao explorar, deslizar e bater nas catacumbas assustadoras e passagens secretas de Arkham Asylum. Batman: Arkham Asylum pode não oferecer a experiência definitiva de super-herói, mas é o mais inteligente e bem-feito jogo de quadrinhos já produzido e um dos melhores jogos do ano.
"Arkham Asylum", que está disponível para o PlayStation 3 e Xbox 360 e chega ao PC no final do mês, é particularmente impressionante porque, julgando pelo seu pedigree, não tive nenhum motivo para esperar nada melhor que algo meramente aceitável.
Para começar, jogos baseados em propriedades licenciadas de outras mídias são quase sempre terríveis. Esse é um truísmo dos jogos que é mesmo real. Com raras exceções como The Chronicles of Riddick: Escape From Butcher Bay (2004), games licenciados geralmente sofrem com orçamentos de desenvolvimento escassos, design pouco inspirado e roteiros toscos.
E então vem a publicação de "Arkham Asylum" pela Warner Brothers. A Warner é sem dúvida um estúdio de filmes lendário, mas a empresa tem batalhado durante anos para fazer um jogo de ponta, um entretenimento interativo substancial para adultos. Até agora, a unidade de games da Warner era mais conhecida talvez por fraudar uma série inteira com títulos impossíveis de jogar baseada na franquia “Matrix”.
Acrescente o fato de que Arkham Asylum foi desenvolvido por uma empresa relativamente nova chamada Rocksteady Studios, em Londres, e pensei que Arkham Asylum iria direto para o depósito.
Perdão, compradores, isso não acontece. "Arkham Asylum" vai valer todo o frete durante um bom tempo.
O hospital fictício de "Arkham Asylum", em uma ilha perto da costa de Gotham, é lar de muitas das mentes insanas dos supervilões do mundo sombrio e frequentemente mórbido de Batman. À medida que o jogo começa, Batman está escoltando o Coringa de volta à clausura. Mas quem captura se torna o capturado quando o Coringa assume o controle da ilha e põe em prática seus planos para destruir a cidade.
Todo o jogo acontece na ilha, então não há perambulação pelas alturas de Gotham em si. Em contraste com games abertos de super-herói deste ano como Infamous ou Prototype, "Arkham Asylum" é bem mais confinado e estruturado, até claustrofóbico. Batman é um detetive, e enquanto certamente consegue dominar uma briga entre punhos (lindamente animada no jogo), ele é um covarde, um perseguidor que habita as sombras antes de aparecer para matar. Em vez de armas, Batman uma um batarang com as mãos (como um bumerangue). Em vez de superpoderes, Batman tem superbugigangas, como linhas que prendem e decodificadores.
O visual, design de som, combate e exploração de "Arkham Asylum" são todos realizados com primor, mas são o roteiro e atuação soberbos que impulsionam o jogo de bom a ótimo. Afinal de contas, se algo é melhor que uma surpresa agradável, tem que ser uma surpresa agradável que envolva Mark Hamill.
Não estou acostumado em pensar sobre jogos ou descrevê-los usando termos cinematográficos ou teatrais, mas como a voz do Coringa, Hamill simplesmente rouba a cena em "Arkham Asylum". Como outros críticos apontaram, o perverso e desprezível Coringa é de fato o protagonista do jogo. Batman é um homem estoico, direto.
Hamill dublou Coringa antes nos desenhos, mas o Coringa de Arkham Asylum não é vilão de desenho. Esse Coringa não é bobo. É um Coringa adulto, mau. A voz de Hamill fornece ao personagem uma malícia incrível que é igual em cada ponto à de Jack Nicholson ou Heath Ledger. E ele e outros atores, incluindo Arleen Sorkin como o delicioso Harley Quinn, têm o material certo com o qual trabalhar. A trama pode ser delgada como a de um quadrinho, mas o roteiro de Paul Dini (também de “Lost”) transborda com sagacidade rara para os jogos.
Talvez o feito mais impressionante da Rocksteady é como "Arkham Asylum" pode induzir arrepios, inspirar alguns momentos de terror genuíno e às vezes exibir cenas de profundidade psicológica perturbadora (por exemplo, o jovem Bruce Wayne se lembrando da morte violenta dos pais) sem apelar para o profano ou baldes de sangue. Com sua sensibilidade madura, Arkham Asylum, classificado com o selo T for Teen (maiores de 13 anos), provavelmente vai assustar muitas crianças que nem piscariam em jogos com o selo M.
Ficar com medo pode não ser divertido no começo, mas "Arkham Asylum" tem surpresas agradáveis de sobra.
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Tags: HQ, multiplataforma e Warner Brothers.
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